Friday, June 12, 2020

O vandalismo das Estátuas e o tráfico de Escravos!

No seguimento ao que tem acontecido nos EUA e um pouco pelos países europeus, várias estátuas têm sido vandalizadas, por representarem um pouco o que de mais dúbio e negro existe na história do colonialismo europeu, o tráfico de escravos. 

Indubitavelmente este fenómeno chegou a Portugal com a vandalização da estátua do padre António Vieira em Lisboa. 500 anos depois do inicio do império português, e cerca de 50 anos depois da descolonização das últimas províncias ultramarinas, Portugal ainda não iniciou o debate sobre o papel histórico que os portugueses tiveram no tráfico de escravos. 

Portugal foi um actor de primeira ordem de mobilização de milhões de escravos, os números atuais apontam para a casa de 4,5 milhões de escravos, de um total de cerca de 11,5 milhões de escravos retirados de África para as Américas. Embora o papel dos portugueses em África, foi sobretudo de clientes, ou seja, as redes  esclavagistas que forneciam os escravos, já existiam muito antes de algum europeu aportar nas costas africanas, fornecendo por exemplo os escravos para as regiões muçulmanas, e deste modo naturalmente eram negros que capturavam negros para os vender.

Ora como é óbvio um crime, não apaga outro. A destruição humana provocada nas regiões Africanas pelas redes esclavagistas, adensaram com a procura europeia por mão de obra, que por sua vez era levada para o novo mundo, pronto a ser desbravado e a fornecer  matéria prima como o tabaco, café ou o açúcar à Europa.

Faz por isso sentido ter a discussão da escravatura, sobretudo do ponto de vista ético e moral, de modo a ser condenada e não voltar a repetir-se ou a ser tolerada no seio da cultura europeia. O Padre António Vieira reclamava contra os maus tratos infligidos aos escravos, mas tolerou a instituição, coisa diferente era ser um apoiante que obviamente não o era, fazia parte do ordenamento jurídico da altura, como hoje faz o aborto ou a eutanásia.

Sendo um homem de seiscentos, muito antes do nascimento do liberalismo europeu, concebia a liberdade sobretudo do ponto de vista espiritual e não jurídico, deste modo, mesmo o homem escravo, poderia ser livre, e o homem livre ser escravo. Para Vieira a liberdade essencial para o homem, é a liberdade espiritual, que se manifesta pela perfeita harmonia da sua natureza racional e espiritual, com a sua natureza animal, no qual deveria estar submetida, de forma a ordenar os desejos e instintos humanos. No fundo à maneira estóica que a mensagem cristã assimilou. 

Deste modo para Vieira, caso vivesse no mundo europeu atual, manteria a opinião que ainda hoje há esclavagismo no seio dos homens. É o esclavagismo auto-infligido , quando o homem se submete ao pecado e aos seus instintos predatórios no interior do seu ser. Felizmente hoje a liberdade jurídica é garantia de liberdade política nos Estados Europeus, mas a essência da verdadeira liberdade permanece, é o esforço individual de aperfeiçoamento e de elevação espiritual, e só assim é que se explica que no mundo pós industrial actual, ainda exista o esclavagismo de sempre, praticado em África e não só. 

Julgo que é aqui que a questão da reparação histórica, que também deve ser levantada, faz mais sentido, na medida que é uma acção sobretudo que a Europa deve a ela mesma, para ultrapassar a questão ética e moral, e sobretudo porque ajuda a resolver uma injustiça, que no entender da cultura ocidental e cristã, caberá no juízo final solucionar definitivamente. Assim os Estados Ocidentais deveriam ter uma mão mais firme e denunciadora no combate à actual escravatura existente nos países Africanos e em todo o mundo onde permanece. A reparação histórica especificamente deve ser feita sobretudo  ajudando os seus Estados, herdeiros dos descendentes dos povos africanos, a prosseguirem o seu desenvolvimento e felicidade, contra todo o tipo de abusos dos Direitos-Humanos. 

Por outro lado, as reparações históricas são naturalmente voluntaristas e simbólicas, até porque no caso da escravatura, há muito os escravos deixaram o nosso meio, impedindo qualquer tipo de reparação directa, mas não significa que as suas almas não estejam com Deus que é Testemunha e Juiz, garantia da justiça na história e no juízo final, no qual finalmente a Justiça se efectivará.

De resto a vandalização da estátua de Vieira apenas revela ódio à cultura ocidental. No fundo é um ato de contra-cultura vazio e desesperado, sem esperança. Vieira é um homem representante da cultura cristã e uma referência da cultura portuguesa, um humanista que defendeu a pessoa humana, a igualdade intrínseca de todos os homens como filhos de Deus, e a capacidade do homem para a verdadeira liberdade, ainda que conspurcado pelo pecado original. Não há liberalismo sem igualdade, não há liberalismo sem liberdade, não há liberalismo, sem a intrínseca dignidade da pessoa humana defendida desde que Cristo morreu na Cruz.

Sobretudo não há liberalismo sem Homens Livres, na acepção de Vieira.

No comments:

Post a Comment

A crise pandémica no meio das crises do nosso mundo.

O nosso mundo vive actualmente uma espécie de prelúdio de uma «Dark Age», que se materializa no esvaziamento espiritual da civilização ocid...