Ainda estamos na ressaca da vandalização das estátuas, porque muitas foram visadas, no entanto, não se entende as escolhas. Os vândalos querem se pronunciar contra o humanismo de Vieira? ou contra o libertador da Europa, ou são apologistas do isolacionismo e por isso cortaram a cabeça ao explorador Colombo?
A verdade é que esta última é necessário um esforço de reflexão para a entender os motivos. Talvez corra o risco de errar mas eu aposto que o principal motivo para cortarem a cabeça à pobre da estátua, foi uma afirmação de rejeição de qualquer herança europeia, a rejeição dos descobrimentos europeus e naturalmente o seu domínio sobre o novo mundo.
A questão é intrincada e violenta, pois ao longo da história humana de cerca de 10 mil anos, o contacto cultural entre civilizações diferentes, acarretou o desaparecimento de uma delas. Infelizmente o contacto entre as civilizações ameríndias e a civilização europeia, não poderia ser de outra forma, sendo que hoje sabemos que as principais civilizações ameríndias entraram em colapso, foram vítimas das bactérias que os europeus traziam e não sabiam.
Com certeza que muitos crimes foram perpetuados pelos europeus, como foram praticados pelos ameríndios.
A questão relevante para a actualidade, é como o colonialismo europeu apesar de herdeiro da cultura cristã não evitou a disseminação do tráfico de escravos ou o aparecimento de uma cultura racista no seu seio. Não há dúvidas, por muito materialistas que possam ser, que o universalismo cristão foi a força vital da expansão europeia, cujo empreendedorismo repousava sobre a força moral do evangelho e da sua pregação a todo o mundo. De fato no século XIX o domínio europeu estendia-se a cerca de 2/3 da terra, quando 400 anos antes, no inicio da sua expansão, o poder dos reinos cristãos, eram anedóticos comparados com o poder do imperador Chinês ou do imperador Otomano.
Ora o que aconteceu nesse período de 400 anos? Os Europeus criaram a maior rede de comércio de escravos do mundo, para finalmente proibirem completamente a sua existência. Durante o processo de globalização levado a cabo pelos mercadores europeus, no seio da cultura europeia vultos do humanismo cristão que questionaram, criticaram e paulatinamente desmontaram as contradições de uma globalização de uma minoria à custa da dignidade da maioria.
Julgo por isso, quando os vândalos rejeitam a herança da cultura europeia, por uma versão Kitsch, impoluta e sem vida, rejeitam a maior qualidade da cultura europeia, nomeadamente a sua capacidade de se auto-questionar. A realidade complexa da cultura europeia, não se compreende cortando a sua história, mas questionando as contradições e omissões. Não queremos uma história Kitsch. Ninguém pode esquecer que os paradoxos e as contradições são parte intrínseca da realidade humana, os evangelhos não esconderam as contradições, e o próprio Cristo, sendo humano e divino, anunciou a sua mensagem a um só povo, mas foram outros que a aproveitaram.
Julgo por isso, quando os vândalos rejeitam a herança da cultura europeia, por uma versão Kitsch, impoluta e sem vida, rejeitam a maior qualidade da cultura europeia, nomeadamente a sua capacidade de se auto-questionar. A realidade complexa da cultura europeia, não se compreende cortando a sua história, mas questionando as contradições e omissões. Não queremos uma história Kitsch. Ninguém pode esquecer que os paradoxos e as contradições são parte intrínseca da realidade humana, os evangelhos não esconderam as contradições, e o próprio Cristo, sendo humano e divino, anunciou a sua mensagem a um só povo, mas foram outros que a aproveitaram.
Sim, não existe cultura que revelou maior capacidade de auto-crítica, questionando as suas qualidades e defeitos, e é aí, que o sucesso da cultura Ocidental pode ser descortinado. Não foi a cultura europeia que inventou o esclavagismo ou o racismo, mas é no seu seio que a primeira terminou, e a segunda é combatida sem freios.
Os vândalos podiam até ter acertado nas cabeças, mas quando cortam cabeças de exploradores, humanistas ou libertadores, com todas as contradições inerente ao espírito humano, cortam um pouco das forças vitais da cultura ocidental, cortam a sua capacidade de se reinventar, cortam a esperança e um futuro melhor.

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