Tuesday, June 23, 2020

A crise pandémica no meio das crises do nosso mundo.

O nosso mundo vive actualmente uma espécie de prelúdio de uma «Dark Age», que se materializa no esvaziamento espiritual da civilização ocidental por uma cultura do «economês», e na sua desfragmentação social que destrói os seus alicerces vitais. A descristianização das sociedades ocidentais, é feita com consequências inultrapassáveis na garantia da inviolabilidade dos direitos da pessoa humana e no respeito pela sua liberdade, com consequências políticas a longo prazo. Por outro lado o avanço da técnica e do conhecimento não são suficientes para impedir este definhamento, pelo contrário, poderão acelará-lo pela destruição, caso se inicie uma guerra global, cuja probabilidade aumenta em razão da incrementação da solução autoritária.

Assim o caos se que vive atualmente na ordem internacional é figurativo da fragmentação das instituições e do seu espírito, incapaz de construir qualquer consenso ou visão, para além dos egoísmos nacionais. A crise pandémica veio acelerar este processo, de crises atrás de crises, até a luz da civilização se fechar definitivamente sobre nós.

Sensivelmente há 1500 anos atrás, o mundo antigo ruiu definitivamente, com a queda de Roma em 476 A.C e da sua «pax romana». A geografia europeia tornou-se um bando de retalhos ocupada pelos povos bárbaros que  se moviam e se digladiavam em território europeu, a partir da pilhagem e da  guerra. Actualmente o retrocesso civilizacional advêm pelo desgaste das instituições multilaterais do pós-guerra, nomeadamente as Nações Unidas e as suas agências, a Organização Mundial de Comércio, herdeira do GATT, e que hoje se encontra inoperante, e até a própria NATO se encontra em crise existencial pela relutância dos EUA em liderá-la.

A fragilidade destas três instituições de âmbito global, que estruturam a ordem internacional, abre as portas a anarquia internacional e colocam em perigo os últimos 70 anos da «pax americana». O principal vírus responsável pelo seu desgaste é o recrudescimento dos nacionalismos, que tem como principal dinamizador, o soft e hard power do autoritarismo Chinês. Com a crise financeira de 2008, a China  tornou-se uma super-potência à escala global, por ter conseguido diplomaticamente a anuência Americana para a sua entrada para a Organização Mundial do Comércio em 2001 e economicamente, integrando os circuitos de cadeias de produção internacionais, e assim, aproveitar a globalização ocidental ao máximo, apesar da sua cultura histórica introspeta. Exportando os seus capitais  para os países mais afectados pela crise, comprando empresas e concessões de infra-estruturas essenciais a preços baixos, semeia o seu poder vindouro em territórios estrangeiros, de modo a abrir novos mercados aos seus produtos.

Até hoje a política Ocidental, especificamente a política Americana, seguindo o axioma de que o desenvolvimento económico despoleta reformas de teor democrático, abriram as portas do comércio mundial à China. Contudo o vertiginoso crescimento Chinês e a chegada de Xi Jiping, que incrementou uma centralização do seu poder, no seio do partido comunista, para alêm de descredibilizar este axioma, permitiu à China escalar inexoravelmente a escada do poder, sem garantias de respeito pela inviolabilidade dos direitos da pessoa humana, ou sequer com garantias políticas de liberdades, tornando-se uma série ameaça à actual ordem internacional e à civilização ocidental.

Poderão afirmar que exagero, que a civilização ocidental não está em risco, apenas a ordem multilateral Americana do pós-guerra, que naturalmente é posta em causa por um rival sistémico, a China. 

Julgo que não. A forma como a China lidou com o aparecimento do Covid-19, atrasando em pelo menos duas semanas, a revelação do genoma do Covid 19 à Organização Mundial de Saúde (OMS), ainda que os estatutos da OMS, obrigue os Estados a fornecerem informação relevante para a saúde  pública mundial, revela uma lógica de poder, contrária ao direito internacional e destruidora de qualquer ordenamento internacional. As consequências conhecidas até hoje, resultaram na maior recessão económica global que há registo, e em incontáveis mortes e sofrimento.

Assim, não existe ordenamento internacional sem respeito pelas regras internacionais. Ao contrário da civilização Ocidental, que é constituído por uma miríade de estados, que ao longo de séculos, desenvolveram um direito internacional baseado na reciprocidade e igualdade, no seio de uma cultura comum, a China é uma estado-império, que abrange a civilização Chinesa, historicamente uma das mais refinadas e antiga civilizações do mundo, sem tradição de reciprocidade nas relações internacionais.

O poder Chinês que se quer transformar outra vez, no «império do meio», foi granjeado nos últimos 20 anos, devido a um período de optimismo nas relações internacionais e de expansão das democracias, com o colapso do Império Soviético. Hoje, o ordenamento internacional está a ser posto à prova, a liberalização dos mercados provou ser insuficiente para imbutir uma cultura democrática e dos direitos dos homens, assim no refluxo da maré, os braços da globalização só poderão nadar em águas amistosas e conhecidas. Países não democráticos não poderão continuar a ludibriar as instituições internacionais, sem o risco de as destruir.

Thursday, June 18, 2020

A União Europeia, um gigante com pés de barros?

Na véspera de um importante Conselho Europeu que poderá aprovar o pacote proposto pela Comissão Europeia que contempla um Fundo de Recuperação de 750 mil milhões de euros, dos quais sensivelmente 500 mil milhões serão em subvenções a fundo perdido, as suas hipóteses de ser aprovado, estão hoje em 50%.

Nada de novo até aqui, não existe uma inevitabilidade histórica que subverte as decisões individuais feitas pelos políticos eleitos pelos seus países. Os chamados países frugais estão contra, naturalmente por serem contribuintes líquidos para o orçamento Europeu, enquanto Portugal Europeísta, é um beneficiário líquido.

A realidade é que a crise de 2008-11, provocou mossa nos países Sul da Europa, que se viram confrontados com uma política de austeridade que criou níveis de animosidade enormes, que atingiram as instituições nacionais, e com maior vigor, as instituições Europeias, que se tornaram o bode expiatório, face à relutância dos países do Norte, mais uma vez, contribuintes líquidos, em correr riscos morais, face ao perigo de insolvência dos países do sul.

Hoje a União Europeia corre também um risco moral, mas de natureza existencial, de não sobreviver perante a desagregação do mercado interno, caso a Itália ou a Espanha, com níveis de dívida elevados, sejam obrigadas a  tomar medidas proteccionistas de modo a protegerem-se do descalabro económico e social, do que seria rácios de pagamento de dívida muito elevados.

A solidariedade Europeia será algo real? Nascida das cinzas da alta idade média, a história europeia é uma história de nações, imbuídas da cultura cristã que acolhem o Papismo mas rejeitam o Cesarismo.  Para os dias de hoje, significa que a construção Europeia, será sempre uma construção voluntária e transparente, com pés de barro, nunca mais do que isso. A verdade é que o espírito europeu actual que emergiu da vontade dos países no final da 2ª guerra mundial, materializou-se na vontade em não repetir políticas punidoras, responsáveis pelo grande suicídio das nações europeias. Ou seja, contra os tratados que premeiam os vencidos e  castigam os vencedores, a solidariedade europeia encontrou soluções originais e mistas, ainda hoje, 70 anos depois. 

Infelizmente para o espírito de solidariedade, 70 anos são uma eternidade, e esta tornou-se uma palavra vazia, que apenas esconde melhor os interesses egoístas dos estados europeus, assim hoje na política europeia, a solidariedade no verdadeiro sentido do terno, tornou-se uma política irracional. O eleitorado nacional assim o exige, desconhecedor da história e sem memória, as únicas faculdades que dão sentido à palavra solidariedade, luta naturalmente contra políticas voluntaristas europeias.  

Talvez por isso amanhã será um pouco diferente, porque a última crise ainda não foi esquecida, aliás foi ontem para quem está habituado a olhar para a história, e os seus efeitos estão presentes em todo o mundo, em líderes populistas e ditatoriais que perderam o medo. Apenas a história e o tempo, poderão ajudar políticas voluntaristas europeias e hoje mais do que nunca estão presentes, para quem não é cego.

Se a Alemanha e os países frugais atrás dela, atravessarem este rubicão, certamente que terão que explicar muito bem aos seus eleitores, a generosidade aos países do sul. Os países do sul, beneficiários líquidos, naturalmente terão ondas efusivas de europeísmo. Qual então o risco moral para estes últimos? Precisamente o estado de euforia, o despesismo e o esquecimento das dificuldades. Portugal, país que se desenrascou muito bem na história, tem mais uma oportunidade de  trilhar o caminho da convergência e de diferença, e provavelmente falhará mais uma vez.

Continuaremos nós também com pés de barros e muitos bons na arte do desenrascanso ou como se deve entender, da língua afiada..





Monday, June 15, 2020

A questão do colonialismo.

Ainda estamos na ressaca da vandalização das estátuas, porque muitas foram visadas, no entanto, não se entende as escolhas. Os vândalos querem se pronunciar contra o humanismo de Vieira? ou contra o libertador da Europa, ou são apologistas do isolacionismo e por isso cortaram a cabeça ao explorador Colombo?



A verdade é que esta última é necessário um esforço de reflexão para a entender os motivos. Talvez corra o risco de errar mas eu aposto que o principal motivo para cortarem a cabeça à pobre da estátua, foi uma afirmação de rejeição de qualquer herança europeia, a rejeição dos descobrimentos europeus e naturalmente o seu domínio sobre o novo mundo.

A questão é intrincada e violenta, pois ao longo da história humana de cerca de 10 mil anos, o contacto cultural entre civilizações diferentes, acarretou o desaparecimento de uma delas. Infelizmente o contacto entre as civilizações ameríndias e a civilização europeia, não poderia ser de outra forma, sendo que hoje sabemos que as principais civilizações ameríndias entraram em colapso, foram vítimas das bactérias que os europeus traziam e não sabiam.

Com certeza que muitos crimes foram perpetuados pelos europeus, como foram praticados pelos ameríndios. 

A questão relevante para a actualidade, é como o colonialismo europeu apesar de herdeiro da cultura cristã não evitou a disseminação do tráfico de escravos ou o aparecimento de uma cultura racista no seu seio. Não há dúvidas, por muito materialistas que possam ser, que o universalismo cristão foi a força vital da expansão europeia, cujo empreendedorismo repousava sobre a força moral do evangelho e da sua pregação a todo o mundo. De fato no século XIX o domínio europeu estendia-se a cerca de 2/3 da terra, quando 400 anos antes, no inicio da sua expansão, o poder dos reinos cristãos, eram anedóticos comparados com o poder do imperador Chinês ou do imperador Otomano. 

Ora o que aconteceu nesse período de 400 anos? Os Europeus criaram a maior rede de comércio de escravos do mundo, para finalmente proibirem completamente a sua existência. Durante o processo de globalização levado a cabo pelos mercadores europeus, no seio da cultura europeia vultos do humanismo cristão que questionaram, criticaram e paulatinamente desmontaram as contradições de uma globalização de uma minoria à custa da dignidade da maioria.

Julgo por isso, quando os vândalos rejeitam a herança da cultura europeia, por uma versão Kitsch, impoluta e sem vida, rejeitam a maior qualidade da cultura europeia, nomeadamente a sua capacidade de se auto-questionar. A realidade complexa da cultura europeia, não se compreende cortando a sua história, mas questionando as contradições e omissões. Não queremos uma história Kitsch. Ninguém pode esquecer que os paradoxos e as contradições são parte intrínseca da realidade humana, os evangelhos não esconderam as contradições, e o próprio Cristo, sendo humano e divino, anunciou a sua mensagem a um só povo, mas foram outros  que a aproveitaram.

Sim, não existe cultura que revelou maior capacidade de auto-crítica, questionando as suas qualidades e defeitos, e é aí, que o sucesso da cultura Ocidental pode ser descortinado. Não foi a cultura europeia que inventou o esclavagismo ou o racismo, mas é no seu seio que a primeira terminou, e a segunda é combatida sem freios.

Os vândalos podiam até ter acertado nas cabeças, mas quando cortam cabeças de exploradores, humanistas ou libertadores, com todas as contradições inerente ao espírito humano, cortam um pouco das forças vitais da cultura ocidental, cortam a sua capacidade de se reinventar, cortam a esperança e um futuro melhor.


Friday, June 12, 2020

O vandalismo das Estátuas e o tráfico de Escravos!

No seguimento ao que tem acontecido nos EUA e um pouco pelos países europeus, várias estátuas têm sido vandalizadas, por representarem um pouco o que de mais dúbio e negro existe na história do colonialismo europeu, o tráfico de escravos. 

Indubitavelmente este fenómeno chegou a Portugal com a vandalização da estátua do padre António Vieira em Lisboa. 500 anos depois do inicio do império português, e cerca de 50 anos depois da descolonização das últimas províncias ultramarinas, Portugal ainda não iniciou o debate sobre o papel histórico que os portugueses tiveram no tráfico de escravos. 

Portugal foi um actor de primeira ordem de mobilização de milhões de escravos, os números atuais apontam para a casa de 4,5 milhões de escravos, de um total de cerca de 11,5 milhões de escravos retirados de África para as Américas. Embora o papel dos portugueses em África, foi sobretudo de clientes, ou seja, as redes  esclavagistas que forneciam os escravos, já existiam muito antes de algum europeu aportar nas costas africanas, fornecendo por exemplo os escravos para as regiões muçulmanas, e deste modo naturalmente eram negros que capturavam negros para os vender.

Ora como é óbvio um crime, não apaga outro. A destruição humana provocada nas regiões Africanas pelas redes esclavagistas, adensaram com a procura europeia por mão de obra, que por sua vez era levada para o novo mundo, pronto a ser desbravado e a fornecer  matéria prima como o tabaco, café ou o açúcar à Europa.

Faz por isso sentido ter a discussão da escravatura, sobretudo do ponto de vista ético e moral, de modo a ser condenada e não voltar a repetir-se ou a ser tolerada no seio da cultura europeia. O Padre António Vieira reclamava contra os maus tratos infligidos aos escravos, mas tolerou a instituição, coisa diferente era ser um apoiante que obviamente não o era, fazia parte do ordenamento jurídico da altura, como hoje faz o aborto ou a eutanásia.

Sendo um homem de seiscentos, muito antes do nascimento do liberalismo europeu, concebia a liberdade sobretudo do ponto de vista espiritual e não jurídico, deste modo, mesmo o homem escravo, poderia ser livre, e o homem livre ser escravo. Para Vieira a liberdade essencial para o homem, é a liberdade espiritual, que se manifesta pela perfeita harmonia da sua natureza racional e espiritual, com a sua natureza animal, no qual deveria estar submetida, de forma a ordenar os desejos e instintos humanos. No fundo à maneira estóica que a mensagem cristã assimilou. 

Deste modo para Vieira, caso vivesse no mundo europeu atual, manteria a opinião que ainda hoje há esclavagismo no seio dos homens. É o esclavagismo auto-infligido , quando o homem se submete ao pecado e aos seus instintos predatórios no interior do seu ser. Felizmente hoje a liberdade jurídica é garantia de liberdade política nos Estados Europeus, mas a essência da verdadeira liberdade permanece, é o esforço individual de aperfeiçoamento e de elevação espiritual, e só assim é que se explica que no mundo pós industrial actual, ainda exista o esclavagismo de sempre, praticado em África e não só. 

Julgo que é aqui que a questão da reparação histórica, que também deve ser levantada, faz mais sentido, na medida que é uma acção sobretudo que a Europa deve a ela mesma, para ultrapassar a questão ética e moral, e sobretudo porque ajuda a resolver uma injustiça, que no entender da cultura ocidental e cristã, caberá no juízo final solucionar definitivamente. Assim os Estados Ocidentais deveriam ter uma mão mais firme e denunciadora no combate à actual escravatura existente nos países Africanos e em todo o mundo onde permanece. A reparação histórica especificamente deve ser feita sobretudo  ajudando os seus Estados, herdeiros dos descendentes dos povos africanos, a prosseguirem o seu desenvolvimento e felicidade, contra todo o tipo de abusos dos Direitos-Humanos. 

Por outro lado, as reparações históricas são naturalmente voluntaristas e simbólicas, até porque no caso da escravatura, há muito os escravos deixaram o nosso meio, impedindo qualquer tipo de reparação directa, mas não significa que as suas almas não estejam com Deus que é Testemunha e Juiz, garantia da justiça na história e no juízo final, no qual finalmente a Justiça se efectivará.

De resto a vandalização da estátua de Vieira apenas revela ódio à cultura ocidental. No fundo é um ato de contra-cultura vazio e desesperado, sem esperança. Vieira é um homem representante da cultura cristã e uma referência da cultura portuguesa, um humanista que defendeu a pessoa humana, a igualdade intrínseca de todos os homens como filhos de Deus, e a capacidade do homem para a verdadeira liberdade, ainda que conspurcado pelo pecado original. Não há liberalismo sem igualdade, não há liberalismo sem liberdade, não há liberalismo, sem a intrínseca dignidade da pessoa humana defendida desde que Cristo morreu na Cruz.

Sobretudo não há liberalismo sem Homens Livres, na acepção de Vieira.

Friday, June 5, 2020

O combate pelas alterações climáticas, é um combate cristão!




Hoje dia 5 de Junho de 2020, dia Mundial pelo meio ambiente, foi notícia que Maio do corrente ano, foi o mês de Maio registado, mais quente de sempre. Para quem acompanha a algum tempo estes registos sabe que tem havido sucessivos recordes de anos mais quentes e de meses mais quentes, sobretudo desde a viragem do milénio. Como todas as pessoas avisadas, o alarmismo é mau conselheiro e previsões apocalípticas apenas sãos boas, para incutir o medo e a uma inacção derivado do radicalismo das suas propostas.

Por outro lado um Cristão que descura da sua responsabilidade de cuidar da terra e da preservação da vida, favorecendo uma liberdade humana sem limites e irresponsável, negligencia a sua condição natural, porque o homem é espírito e vontade, mas também é natureza como relembrou o Papa Bento XVI.

A ecologia cristã é uma ecologia integral nas palavras do Papa Francisco, aborda a natureza humana e a natureza terrestre, seguindo o principio que todas a criação está ligada entre si, partilhando uma origem comum, Deus Criador. Não tenhamos dúvidas, a irresponsabilidade humana, quer individual quer colectiva,  está presente na cultura do descartável, na destruição dos ecossistemas locais e regionais, no consumo alimentar desmedido que danifica e desfigura o corpo humano, na prossecução de metas económicas que não procuram o bem estar humano e social, e  que apenas provocam mais destruição ambiental. Repito, não tenhamos dúvidas, comete-se  assim pecado contra o mundo, e contra o seu criador.

Os cristãos que ainda não acordaram para este fato simples, que os seus atos têm implicações para o bem estar da terra, o fazem quer por motivos políticos, ideológicos ou por considerações apenas egoístas, são negacionistas e permanecem em combates periféricos. O desenvolvimento atual advogado por todos os países, e que é transversal a todas as ideologias mais liberais ou mais estatizantes, perante os fatos atendíveis e esmagadores, têm que optar  pelos fins morais da economia, se quiserem que esta sobreviva a médio prazo. Optar por uma economia de rosto humano na expressão de Armatya Sen, é desde já, prevenir novas crises financeiras como a ocorrida em 2008, que têm raízes numa profunda crise ecológica humana.

Infelizmente pouco apreendemos. A economia atual continua a matar, começando pela vida humana através de inúmeras doenças cardiovasculares e de foro mental, e claro, de forma surpreendente e inédita na história, atinge o planeta terra, uma economia que destrói os equilíbrios naturais. Optar pela ecologia integral proposta pelo Papa Francisco é conjugar essas duas realidades que são na sua essência, uma.

Uma economia livre é sobretudo uma economia sustentável, que tem como eixo principal a retransformação e reutilização dos recursos de modo que nada se perde, como a natureza ensina. Uma economia  de maximização dos lucros, assenta na maximização das perdas de recursos ambientais é uma economia danificadora  e que nenhum cristão pode defender, sem pecar contra Deus. Os cristãos não tenham dúvidas, a destruição dos equilíbrios ambientais do planeta terra, são um sintoma de uma avareza e orgulho sem limites que prejudica sobretudo a humanidade. Meditemos no que o Papa afirma:
Se «os desertos exteriores se multiplicam no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos», a crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior. Entretanto temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo meio ambiente. Outros são passivos, não se decidem a mudar os seus hábitos e tornam-se incoerentes. Falta-lhes, pois, uma conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa. (Laudato Si, 2015, Papa Francisco)
 A ecologia da terra hoje, depende de uma ecologia humana.

Thursday, June 4, 2020

A actual Política de meninos mal comportados, Trump e Bolsonaro.

Nas sociedades ocidentais, a viragem do milénio confirmou a vitória de determinadas políticas progressistas (anti-cristãs) no campo social, que muito incomodaram os sectores mais tradicionalistas, ainda que este tivessem o mérito de mostrar que claramente estavam contra. Portugal é um bom exemplo deste fenómeno, com uma tradição católica inegável da sua história, viu o aborto ser aprovado numa 2º referendo, a eutanásia também foi aprovada numa 2º volta, no caso na assembleia na república, e o casamento gay. Em apenas 20 anos a agenda progressista e secular teve três importantes vitórias, face à desprotecção da vida humana camuflada num «humanismo pós moderno» na cultura ocidental. O «ethos» da dignidade da vida humana viu-se mais enfraquecido a longo prazo, face aos totalitarismos da história.

Se considerarmos o axioma que a liberalização dos costumes antecede e acompanha sempre uma liberalização económica, ajuda-nos a explicar a origem da crise financeira de 2008 nos EUA.  Max Weber explicou que a origem do capitalismo, emergiu de um «ethos» alimentado no seio de seitas cristãs que viam na acumulação de riqueza, um sinal de salvação. Quando o «ethos» do capitalismo centra-se no dinheiro, este desmorona-se. 

Sendo que a Europa não foi a culpada da crise financeira de 2008, alimentou o «ethos» de «maximização dos lucros», com o enfraquecimento no seu seio do «ethos» da vida humana. O que é a generalização da Eutanásia, senão uma racionalização económica da vida? 

Enquanto na sua parte ocidental, o continente Europeu, a «derrota da vida» e a «maximização dos lucros», até hoje,  não elevou nenhum líder populista ao poder, desgastou sobremaneira o sistema político em Itália, França ou Grécia, proporcionando uma radicalização do discurso político. Mais grave foi o que sucedeu no outro lado Atlântico num país de tradição evangélica como o EUA e de tradição católica como o Brasil, aqui houve uma radicalização vitoriosa, que resultou na eleição de Trump e de Bolsonaro. Ambos apoiados firmemente pelos sectores evangélicos dos seus países. No caso Brasileiro tem ocorrido nos últimas décadas um crescimento exponencial do evangelismo que ajuda a explicar alguma radicalização religiosa.


A realidade é que no continente Americano a luta contra a cultura secular é maior do que no continente Europeu. A origem desta divergência de posições no seio das igrejas cristãs, mas também no seio de países de tradição católica e países com maior tradição protestante, é sobretudo determinada pela história, em que no primeiro caso (tradição católica), há hoje um maior colaboracionismo com o estado, protegendo o bem comum, a partir de uma maior valorização de uma sensibilidade humanista e social,  em detrimento de uma  ênfase maior, na luta moral contra os avanços da cultura secular,  que é mais comum nos países de tradição protestante, ou forte componente evangélica. Estes últimos conseguiram a eleição de dois líderes populistas que estão sobremaneira a criar uma divisão no seio das suas próprias sociedades, adoptando uma visão maniqueísta, de eles contra nós. Não é de admirar que líderes populistas, assentes em bases evangélicas e nacionalistas, sejam moralistas, e excomungam uma parte da sociedade e consigam arregimentar e radicalizar a sua facção de apoiantes.

A verdade é que se pode fazer muitas críticas à Igreja Católica, e até a uma certa passividade face ao Estado e à sua cultura secular, mas a história milenar da igreja e a sua natureza universal, deram-lhe todo o tipo de anticorpos para não cair em armadilhas de facciosismo políticos ou religioso, ainda que com base em questões importantes para os Católicos, como as que dizem respeito à vida.

Lembrem-se de quando Cristo acusou os Fariseus de serem hipócritas, por engolirem camelos e filtrarem moscas, pela forma como viviam o Judaísmo. Cabe aos Cristãos hoje não cair no mesmo erro, não engulamos Camelos ao aceitar líderes cristãos, que criem todo tipo de divisões e discriminações maniqueístas, condenando comunidades inteiras de refugiados e estrangeirados, apenas porque falam o que queremos ouvir, e  vestem-se bem, mas o seu espírito não tem outra definição, que não do anticristo, são apenas hipócritas.

Tuesday, June 2, 2020

O confinamento de Jesus Cristo

Ainda estamos na ressaca da pandemia do Covid 19. Não há dúvidas que para alêm dos seus impactos económicos e políticos, o seu impacto na vivência religiosa não foi diminuto. A pandemia veio mais uma vez revelar velhas divisões da vivência religiosas das diversas Igrejas Cristãs, mas também no interior dessas mesmas Igrejas, como é o caso da Igreja Católica que se encontra presente nas diferentes geografias. Embora nunca como hoje, houve um Papa que é sobremaneira contestado publicamente pelos sectores mais conservadores, liderados pelo Cardeal Americano Raymond Burke. 

O Economist sintetizou neste interessante artigo, as principais razões que opõem estas duas facções de crentes, naturalmente apontando para o que elas têm mais medo. Por um lado estão os crentes que encaram a sua fé a partir de uma sensibilidade mais humanista, ou seja aplicam o principio de São Tiago que sem obras não existe fé. As suas principais preocupações nesta crise, são combater o aumento da pobreza e a degradação ambiental. São os crentes colaboracionistas com o Estado e as suas agências, de modo a lutarem pelo bem comum. A segunda facção de crentes tem apontado baterias ao avanço do secularismo, nomeadamente da liberdade religiosa que foi muito afectada pelo confinamento. Deste modo o Estado e a cultura secular que o move, nomeadamente os direitos gays, feminismo, ideologia do género são a sua principal preocupação.

Estas diferenças foram espelhadas no âmbito geográfico. A diferente abordagem das igrejas nos EUA com as suas congéneres na Europa. No seio da Igreja Católica onde o Papa liderou o acatamento sanitário por parte das autoridades, e desta forma foi um exemplo para toda a vivência religiosa no continente Europeu, apontando precisamente para as preocupações humanitárias,. 

Eu aqui já falei sobre a necessidade de a Igreja corresponder aos anseios das duas sensibilidades,  valorizando na sociedade uma maior sentido moral para contrapor ao secularismo, nomeadamente na óptica ambiental, económica e política, mas correspondendo sempre a uma dinâmica de vivência da sua vida espiritual, por meio dos seus sacramentos, especificamente a Eucaristia. Infelizmente como sabemos isso não aconteceu, no caso europeu isso pode ser explicado, por uma maior tradição teocrática, e talvez explique um maior colaboracionismo da hierarquia da Igreja com as autoridades.

Já nos EUA a tradição protestante é maior, não existe relações formais entre as diversas igrejas e o estado, assim o combate ao covid é feito mais ao nível espiritual, contra a cultura secular. Para os sectores  tradicionais Católicos, que têm em mais consideração este combate , a postura do Cardeal Burke é mais aceitável, do que o colaboracionismo que não tem em conta a fé:

 “We cannot simply accept the determinations of secular governments, which would treat the worship of God in the same manner as going to a restaurant or to an athletic contest.” (Cardinal Burke, Economics 2.06.20)

As duas abordagens são complementares, infelizmente a crise da fé, evidencia-se mais, quando não existe comunhão e amizade no interior da Igreja, do que propriamente por agendas que não são incompatíveis. O colaboracionismo da Igreja com o Estado salvou vidas, as raízes da espiritualidade luterana que enforma os cidadãos dos  países nórdicos a se comportarem, também.

Mas o que é inegavelmente novo neste período, alargando o fosso entre as duas sensibilidade, é que pela primeira vez, algo contingente como a epidemia, confinou nosso Senhor Jesus Cristo.

Não houve missas. 





Monday, June 1, 2020

Black Lives Matter

Todos os homens são irmãos em Cristo. Todos os Homens pertencem a uma só família, a uma só comunidade. Apesar da frase inicial deste texto, não é necessário a fé, para a razão humana inteligir uma verdade universal. Pertencemos todos a uma mesma espécie. Cristo apenas confirmou que todos temos um só Pai. Foi nesse espírito que a Democracia da América foi fundada, inspirada no espírito cristão, no qual o homem se vê em dignidade acima de toda a vida criada, por vontade do Criador e deste modo inalienável. Deste modo não existe poder na terra, humano ou mundano que tenha poder  para revogar a dignidade de um só homem. 

Todo o esquema moral desta grande nação, foi de uma forma genial resumida na seguinte frase muito conhecida do preâmbulo da Declaração da Independência dos EUA:

Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade.

Apesar desta luz gravada na certidão de nascimento dos EUA, ainda assim este, herdeiro das várias instituições europeias e do seu espírito, herdou também a instituição da escravatura, que se desenvolveu muito durante as descobertas europeias do novo mundo, e foi aí, que se estabeleceu com maiores raízes, porque ligadas à economia rural das plantações. Foram precisos cerca de 100 anos e uma guerra civil para que esta instituição desmoronasse plenamente, perante as verdades auto-evidentes gravadas em letras, mas não  totalmente compreendidas na sua amplitude. São um verdadeiro plano para séculos nos EUA. Toqueville no seu majestoso livro «A Democracia Americana» observando a prevalência da escravatura no Sul dos EUA, previu que a médio prazo, seria um dos factores mais em risco para a sobrevivência desta jovem democracia. A vitória do Norte onde a economia não dependia da mão de obra esclavagista, garantiu que ao nível das instituições a escravatura fosse proscrita de vez. 

No entanto, o mesmo norte que não obtinha proveitos da economia esclavagista, devido ao cariz  produtivo mais industrial do que primário, desenvolveu uma forma de racismo de costumes, que se materializou em leis especificas para os brancos e pretos. Respeitando cinicamente os princípios constitucionais, durante décadas desenvolveu-se quase como duas repúblicas, dois povos, duas comunidades, no seio de apenas uma constituição, e  uma democracia, naturalmente dominado pelos homens brancos.

Demorou pelo menos outros 100 anos para que as verdades auto-evidentes assinaladas, fizessem ruir na sociedade dos EUA, a separação física entre os homens brancos e negros, cumprindo um pouco mais, o seu destino moral de dignificação de todos os homens. É de fato um grande exemplo que a história dos EUA revela, sobre o poder que a cultura de um povo tem, sobre as suas instituições. Na sua história, não existe dúvidas que foi a sua cultura a modelar as instituições e não o  contrário, no longo caminho, que a sociedade Americana fez até hoje, de modo a cumprir de forma cada vez mais verdadeira, as tais verdades auto-evidentes. Foi o esforço moral de cada um dos Americanos no seu quotidiano, que mais do que cumprir o preâmbulo Americano, o viveu no seu interior, esse mesmo preâmbulo que é um programa moral para a vida dos EUA, enquanto existir.

Por isso hoje causa repulsa a toda comunidade Americana e mundial, o ato de racismo perpetuado pelo polícia que assassinou de forma brutal George Floyd em Minneapolis, EUA. Não é o ato contra só a comunidade Negra, é também um ato contra o próprio espírito Americano, no fundo é um acto contra a própria essência da América. 

A crise pandémica no meio das crises do nosso mundo.

O nosso mundo vive actualmente uma espécie de prelúdio de uma «Dark Age», que se materializa no esvaziamento espiritual da civilização ocid...