Sunday, May 31, 2020

O Céu e a Terra no Pentecoste de Hoje!

 
Este fim de semana, dia 30 e 31 de Maio de 2020, é um fim de semana histórico. Pela primeira vez astronautas saíram da terra em direcção à Estação Espacial Internacional através de um transporte privado, o Falcon 9 da empresa SpaceX. É um marco da exploração espacial pela humanidade, e abre porta para que o empreendimento humano avançe no que diz respeito aos serviços e economia do espaço, é um passo de gigante em direcção a Marte e além.



Este fim de semana também marca finalmente as aberturas de Igrejas aqui em Portugal, pela primeira vez em mais de 2 meses, os Católicos vão poder comungar Jesus Cristo. Hoje é um Domingo feliz, porque coincide com a celebração da Festa do Pentecostes, a festa do Espírito Santo 3º pessoa da Santíssima Trindade, mistério da Fé Católica.

O Espírito Santo foi recebido pelos Apóstolos por línguas do fogo que desceram sobre eles de modo que o Espírito de Deus se tornou presente no corpo dos Apóstolos. Os Apóstolos ficaram cheios dos Dons de Deus, e desde então saíram da casa em que estavam reunidos, para o mundo de modo a anunciar o novo evangelho, a anunciar o Reino de Deus, já presente no seu interior. Deixaram o medo e o descrença para trás, eram perseguidos e procurados, mas saíram sem temor para anunciar a boa nova ao mundo. Hoje também o Espírito de Deus continua a viver dentro de nós, especialmente dos que comungam, e hoje também o homem procura alcançar o Reino de Deus, que já se encontra no meio dos cristãos.




Enquanto os homens esperam a vinda de Cristo para que o Reino de Deus se manifeste definitivamente no nosso mundo, o homem com os seus talentos e fé, vai encontro do céu, do céu físico, também através de línguas do fogo, que os grandes foguetões expelem de modo a sair da orbita terrestre. Sem medo, o homem vai ao encontro do mistério, vai ao encontro do que ainda não compreende, colocando-se muitas vezes em risco. A cultura cristã que durante 1000 anos forjou a civilização cristã,  colocou no seu seio, esta ânsia de unir finalmente o céu à terra. A vontade de ir ao encontro do mistério e do o compreender, de abraçar o desconhecido e vê-lo como ele é.

A festa do Pentecostes hoje, marca o inicio da alegria dos Cristãos em voltar ao centro do espírito cristão durante os últimos 2000 anos, a Eucaristia. Mediante a vitória de Cristo sobre o mundo e as trevas que o rodeiam, saibamos partir com o coração cheio do seu Espírito, e ir onde nenhum homem foi. Alimentados pelo fogo interior, façamos o céu mais próximo da terra.


Saturday, May 30, 2020

Saúde Mental e Religião

Hoje como sabemos vivemos um período de enorme fragilidade psicológica devido à epidemia Covid 19, que brutalmente provocou um confinamento geral da população, com enormes danos psicológicos ainda por estudar. A solidão, a falta do tacto, o espaço reduzido e interior das nossas casas, sem possibilidade de grandes passeios e socialização no exterior foram tudo sintomas e consequências trágicas, que sobremaneira danificaram a saúde mental de pessoas fragilizadas ou até de pessoas mentalmente robustas. O álcool ajudou felizmente, com o disparo das suas vendas durante o período do confinamento

No entanto antes deste período de estado de excepção, já a nossa sociedade era vítima de doenças do foro da saúde mental como a depressão, ansiedade, esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar, psicoses várias, etc. O consumo de comprimidos elevados para dormir, para combater a depressão, reduzir a ansiedade, ou vários tipos de calmantes, são apenas o sintoma mais visível desta realidade genericamente invisível e fácil de esconder.

As causas são múltiplas e tem haver muito com o desligamento que a nossa sociedade atual tem com o mundo natural e com os seus ciclos. O cérebro do Homo Sapiens evoluiu e foi grande parte estruturado para a vida recoletor-caçador, no qual abrange um período de mais de 100 mil anos da nossa história, antes do nascimento das civilizações ou do próprio nascimento da História.

A nossa sociedade industrial  só tem 200 anos, os nossos cérebros comparativamente têm centenas de milhares de anos. Outra particularidade da nossa sociedade, sobretudo europeia onde a vivência religiosa pública é frugal, tem  haver com o espaço que a vida espiritual ocupa no nosso quotidiano, é diminuta e também frugal e cada vez mais supersticiosa. A técnica está a matar a espiritualidade.

Terá pois ligação a insípida e actual vivência espiritual dos homens com as fragilidades mentais que hoje devastam as nossas sociedades, especificamente a Europeia? Bom não pretendo responder e atar todas as pontas que esta questão coloca, como é evidente. Gostaria apenas de reflectir sobre alguns fatos ocorridos, nomeadamente no contexto desta crise pandémica. Como sabemos durante o período do confinamento, Portugal e vários países Católicos ficaram sem missas e até os sacerdotes foram impedidos de dar apoio espiritual aos doentes no SNS, num período de extrema fragilidade, devido à expectativa de doença e até morte de muitos. Perante o desconhecido e o medo, que houve muito  em relação ao Covid19, os nossos médicos e enfermeiros fizeram um bom trabalho, mas naturalmente o seu trabalho é técnico, é resolver o problema da saúde física. No que diz respeito aos problemas de saúde mental, tarde, mas ainda assim a tempo, o Estado Português disponibilizou apoio psicológico. Mas mediante a expectativa de morte do próprio doente, não me parece suficiente. Pergunto que conforto espiritual puderam obter os doentes?

Nesta crise foi evidente a negligência que este serviço espiritual prestado pelos capelães dos hospitais, tem hoje na sociedade. Sem dúvida que é um serviço voluntário, ou seja, é mediante pedido do doente. No entanto para as nossas autoridades seculares, o serviço espiritual no máximo é um placebo, não existe ministração química, que no caso do apoio psicológico, para além do aconselhamento pode ocorrer, ou seja o aconselhamento espiritual no limite é um capricho, na prática é inútil nas cabeças seculares pensantes.

 Ora está na altura da Igreja lutar contra esta visão antropológica do homem, que se repercute em todas vertentes sociais, especificamente na saúde, que o trata no limite, como um animal pensante, na prática como uma besta. 

Felizmente a maioria das doenças hoje são atendíveis e combatidas ao nível químico e no futuro próximo prevenidas até pela edição genética, contudo a morte ainda não está resolvida e as forças que o homem lida, a começar pela origem da vida, são muito mais abrangentes e permanecem em grande parte um mistério. Por muito conhecimento que o homem pode acumular, do funcionamento mecânico deste mundo e do corpo humano, as questões centrais continuam um mistério, deste modo a forma como o ser humano lida com a morte, não pode ser  negligenciada como se uma máquina se tratasse e a morte uma espécie de turn off.

O ser humano é constituído de consciência, cuja substância ainda hoje permanece um mistério. E como animal consciente que é, tem em primeiro lugar consciência da sua morte,  um dos fenómenos mais emocionalmente dramáticos da experiência humana. Assim a morte naturalmente carrega múltiplos significados, quer para a pessoa que a espera quer para as pessoas que lhe são próximas. Deste modo  ter uma morte boa é essencial, uma morte em que a pessoa se encontra em paz consigo e com os seus. É um direito inalienável da pessoa humana, e por isso não se compreende que tenha sido proibido o acompanhamento espiritual dos milhares de pessoas que vieram a falecer de covid19 em Portugal. Houve várias iniciativas da Igreja de modo que por exemplo as pessoas pudessem receber a santa unção à distancia, a partir de orações pessoais ou a existência de confissões colectivas, mas no fundo fisicamente abandonadas e sozinhas. Óbvio que nós vivos não sabemos o que essas pessoas passaram, e se de fato foram em paz, sem verem um rosto amigo ou terem um palavra de esperança.

A Igreja não pode com passividade aceitar esta situação no futuro nos hospitais, que me parece similar, à  mesma passividade em fazer frente aos poderes públicos e às autoridades cientificas, que arbitrariamente após finalização do estado de emergência, proibiram as missas cerca de 1 mês. É uma situação inaceitável. 

O Homem só é saudável, se construir no seu espírito, um trono à Paz, que advêm da capacidade moral em fazer o bem e corrigir o mal praticado. É uma experiência comum e inata, assim deixai que os Pastores com ajuda das famílias, cuidem dos corações dos nossos doentes no termo da sua vida.



Thursday, May 28, 2020

Poderá a cultura sobreviver, se apenas alicerçada na tecnica?

Como prometi, irei fazer uma pequena reflexão sobre a pergunta colocada em título neste post. Antes de mais convêm definir cultura, que tem amplos significados. Em termos sucintos, cultura é a realização positiva do espírito humano na natureza. É a manifestação da grandeza moral do homem através do trabalho físico ou intelectual. É a criação positiva do homem, na natureza e no mundo. É a cultura que permite a uma sociedade civilizar-se, no fundo, é a cultura que permite criar a civilização, grau máximo de realização das sociedades humanas. Ou seja, a cultura permite aperfeiçoar as diferentes artes, técnicas e conhecimentos, permitindo que as sociedades melhorem o seu bem estar material e espiritual. Desta forma as diversas artes e ciências, e no caso a tecnologia, são o produto de uma cultura. Ora bem, aqui chegámos ao ponto, em que olhando para a questão percebemos que está mal colocada, porque a cultura não se alicerça na técnica, pelo contrário, a técnica é produto da cultura, que permite avançar a civilização. 

Então o que alimenta a cultura se não é a técnica?

A cultura como acima descrevi, é o labor do homem na natureza mediante o seu esforço, que é primeiro esforço moral de modo a agir, pela auto-imposição de disciplina a si mesmo. Ora o homem é um ser com várias necessidades, as mais básicas são as necessidades físicas que se cumprem de forma quase instintiva e por isso sem qualquer tipo de esforço moral.  Depois as necessidades sociais são de uma exigência mais complexa, o reconhecimento de uma esposa, o reconhecimento da comunidade, e o mais exigente, o auto-reconhecimento acabam por criar no homem uma capacidade para agir mais elaborada e consciente. Não existem culturas primitivas que não englobem na sua espiritualidade o caminho certo que o homem deve percorrer de modo a poder conquistar esses níveis de reconhecimento, e é desta forma que nasce a ideia de culturas na história humana.

Depois existem as culturas mais elaboradas, que culminam esse reconhecimento social, não aqui na terra, mas sim num mundo além, fora deste, alcançável depois da morte. Isto porque naturalmente o esforço moral que o homem faz, procurando cumprir essas necessidades sociais, implica muitas vezes sofrimento e até morte. Ao longo da sua história as sociedades humanas viram-se confrontadas por desastres naturais, por doenças, mas não só, lentamente também se viram confrontadas pelo mal provocado por outras comunidades de homens procurando os mesmos recursos. A ideia do sacrifício, cara às religiões, são a forma que o homem encontrou para aplacar o mal que desconhece e assim defender a sua comunidade. E foi na teleologia de Deus, fora deste mundo (de outra natureza), que o homem encontrou o seu fim, o Bem, a Verdade e o Belo.

As diversas culturas originaram diversas civilizações, no entanto houve uma, que rompeu com a ciências dos fins, a teleologia. Cristo Deus resgatou o homem do mal, o sacrifício perfeito, destruiu as forças mágicas da natureza, dessacralizando-a e elevando a natureza caída do homem à sua categoria espiritual. As forças da natureza foram rebaixadas ante a realidade espiritual do homem e de Deus, e o que se seguiu foi uma explosão no conhecimento técnico e experimentalista de modo que o homem pudesse servir-se dele. Ainda assim demorou mil anos, para que a civilização cristã emergisse desta cultura revolucionária.

Tal foi o sucesso da cultura cristã, que hoje, a técnica produzida, que promete ser o novo santo Graal, doadora de vida eterna, ameaça esta de morte, rompendo com a sua teologia, mas também com qualquer teleologia vazia de valor empirico. Voltando pois, à questão de cima que já vimos que está mal colocada, mas agora olhando-a de outro modo. Ou seja, será a cultura vítima mortal da sua própria técnica? Talvez assim já faça sentido a questão em título: - Poderá a cultura sobreviver se apenas alicerçada na técnica? A resposta parece óbvia aos olhos actuais, a técnica não é fonte de uma teleologia, deste modo uma cultura que sobrevive exclusivamente pela técnica destrói os seus alicerces espirituais. Apenas o esforço moral humano, cria sentido e propósito, uma teleologia vital para a dinâmica de qualquer cultura.  E é na realidade da morte e da sua eminência, que provêm a origem de todas as energias vitais que incrementam as culturas históricas, e as transformam em civilizações. Se esse esforço falhar, morrem. Assim, seguindo Arnold Toynnbee um dos grandes historiadores do século XX, escreve que estas só podem morrer de duas causas, (1) são destruídas por outras civilizações superiores, (2) ou cometem suicídio.

Voltando à civilização ocidental, a técnica continuamente desenvolvida, por um lado espelha o sucesso da civilização cristã, mas por outro, é também a principal responsável pela descristianização da cultura, cortando os seus alicerces espirituais. Mediante o bem estar material alcançado, toda a teleologia perde o seu valor, a vida depois da morte desaparece das necessidades psicológicas do homem, e o esforço moral necessário para os homens viverem, diminuiu sobremaneira. Cristo disse que o reino de Deus não é deste mundo, mas hoje a ciência quase que à força, o traz para o nosso mundo. Ao fim de 2000 anos Cristo ainda não cumpriu a sua promessa de voltar com o seu reino, e por isso os homens naturalmente o querem trazer. A técnica ocidental afastou muitos males da vida humana e prolongou a vida do homem, e não fosse o vírus Covid 19, parecia que só a morte física faltaria resolver, cumprindo o livro da Revelação.

Se a técnica for o último alicerce da cultura ocidental com vitalidade, como impedir então o ocidente de cometer suicídio espiritual? Para além da Igreja ser a primeira responsável para impedir a descristianização da sociedade ocidental, cujas ensinamentos espirituais (teologia) foram responsáveis pelo grau de civilização alcançado, o seu papel  encontra-se muito enfraquecido, e até na crise do covid 19, a sua prestação foi quase suicidária. Por isso actualmente são as instituições políticas, responsáveis pelo bem comum, com a maior responsabilidade de impedir a desagregação da civilização. Estas não podem esperar por uma guerra mundial, para adoptar algumas medidas tradicionalistas em favor de uma maior sentido moral da acção humana. Por exemplo nos vectores ambiental, na economia, e nas relações humanas, que actualmente correm riscos eminentes de provocar verdadeiros desastres sociais e naturais no nosso mundo. A Igreja pode e deve dar um contributo enorme para apontar esses riscos morais, e tem sido isso felizmente que o Papa Francisco tem feito, ao apontar para as graves injustiças económicas e para a destruição irresponsável do planeta.

Mas também cabe à Igreja e assim finalizo, dar um maior contributo para reintroduzir novamente o sentido do mistério e de uma teleologia na cultura actual, através por exemplo, da liturgia, colocando elementos que enfatizam a sacralidade da vivência humana e do seu propósito, de modo que a consciência moral do homem,  ajudada pela fé, lhe dê a força a agir para o bem da humanidade. No fundo, fazer avançar a civilização e renovar a cultura ocidental.




Wednesday, May 27, 2020

A tecnica e a missa em tempos de Virus

Hoje os EUA voltam a obter capacidade para levar astronautas ao espaço, através de uma empresa privada americana SpaceX. Daqui a menos de uma hora se o clima permitir e se a técnica do homem não vacilar, dois homens literalmente irão para os céus, continuar a odisseia humana da exploração. No meio da pandemia Covid 19, que não tem poupado os EUA, é um sinal corajoso e de esperança que a exploração espacial, por meio da Nasa e da SpaceX, dão a toda humanidade. Entretanto ainda não se rezam missas em vários países devido a esta pandemia. inclusive em Portugal.  Felizmente se Deus quiser, começarão  este fim de semana

São dois fatos introdutórios que me vão permitir reflectir um pouco sobre o atual papel da igreja na cultura ocidental. Não existe dúvidas na historiografia que todas as civilizações nasceram no seio de um cultural espiritual, ou seja, um conjunto de ideias, princípios e valores, englobados numa sistema de crença global que influenciavam sobremaneira uma comunidade de pessoas a viver de um determinado modo. No caso Europeu, coube à Igreja Católica,  como sociedade humana  herdeira do império romano, e como sociedade divina, responsável pela doutrinação desses mesmos povos, ser a mãe dos povos e educadora dos homens, no seio das trevas da história.

Naturalmente ao longo dessa mesma história, um dos poderes que a religião, usou de sobremaneira, foi o enquadramento dos fenómenos naturais na vida e na história da comunidade, especificamente os desastres naturais porque acarretavam muitas mortes. No caso da Igreja Católica, não é necessário muita originalidade para percebermos quais as principais ideias que os padres transmitiam aos crentes, seguindo a tradição bíblica, os desastres naturais tratavam-se de castigos divinos e que normalmente eram antecedidos por sinais de modo que a comunidade pudesse arrepiar o seu mau caminho. Ninive arrependeu-se e foi salva, enquanto Sodoma e Gomorra mais conhecidas na cultura secular, foram destruídas por fogo que caiu no céu.

Na história ocidental o terramoto de Lisboa é um marco divisório porque pela primeira vez, o positivismo iluminista descartava a explicação teológica dos terramotos, limitando-os a causas naturais. Defendiam que os pecados dos lisboetas pouco contavam para a ocorrência do terramoto. Hoje sabemos que estes se devem à movimentação de placas tectónicas que existem na terra.

Com isto a questão parece resolvida, as causas para os desastres naturais são independentes da acção humana, nomeadamente da acção moral do homem e deste modo a religião não tem uma palavra a dizer sobre estas ocorrências. Aliás a racionalidade humana afastou da esfera cultural e pública, qualquer sistema teológico de explicação, reduzindo-o a uma experiência particular. Mais hoje em dia, durante os eventos do covid 19, inacreditavelmente é a ciência que ensina à  igreja, como rezar a missa, ou seja, é a ciência que ensina a missa ao padre, segundo a proverbial expressão portuguesa, mas sem a ironia tradicional.

Não ignorando que o estudo das causas naturais, que se desenvolveu na ciência ocidental,  emergiu no seio da cultura cristã na secular luta contra o paganismo, e foi no interior desta cultura, que o nosso mundo perdeu todas as suas propriedades mágicas. Que foi o sistemático esforço dos vultos medievais, no qual Aquino brilha, que o homem se colocou numa posição superior à substância deste mundo, que não seria mais que uma máquina para o homem poder estudar. E embora Aquino garantisse essa posição superior ao homem em relação a este mundo, colocou-o numa posição inferior  em relação ao mundo espiritual, cabendo à ciençia mãe, a teologia, o estudo deste mundo invisível, pelo qual os fins do nosso mundo são determinados. Ou seja o homem é matéria e espírito e desta forma está ligado aos dois mundos e por eles é definido. Cabe pois à teologia estudar os fins e as razões que determinam e definem a nossa vida, quer pela revelação divina quer pelo uso da razão natural.

Como sabemos hoje, este mundo invisível desapareceu das nossas costas, e hoje a ciência ensina a rezar a missa, de modo que não venhamos a morrer por dar culto a Deus, que hoje mais parece, não o principio da vida, mas o principio da morte. Mas será então a ciência a dar-nos a vida eterna? Talvez, hoje o velho sonho da imortalidade parece renascer. Por isso, quero alertar para o perigo que a religião cristã tem, em deixar-se aprisionar o culto a Deus, a preceitos contingentes deste mundo efémero. 

Não nego que nesta epidemia do Covid como em tantas outras, as Igrejas físicas são focos de infecção e dos mais perigosos até. Mas também não nego do perigo de se deixar prestar culto ao principio da mesma vida, Deus. Mais, não nego o perigo, que é negligenciado na nossa época, até por quem deveria alertar com mais força, nomeadamente a Igreja, de se tentar proteger a vida humana e deixarmos morrer a nossa alma comum. Não é preciso ser-se douto, Cristo resumiu na seguinte sentença "o que adianta ao homem ganhar o mundo, se vier a perder a sua alma" (MT16:25-26)

O que adianta a Igreja querer salvar a vida terrena, se põem em risco a alma cristã do povo. Será que não haveria outra opção. Será que a Igreja tem o direito de não rezar missas, contra a própria ordem de Cristo? É claro que havia outra opção, então não fomos todos os dias ao supermercado comprar alimento para os nossos corpos, e acaso morremos? Então porque não poderíamos ir à Igreja alimentar a nossa alma, sem correr risco de igual modo?

As Igrejas por exemplo, poderiam estar abertas com apenas 50% das cadeiras livres, e haveria redução do foco, assim quer a vida física seria preservada como manda Deus, mas sobretudo a vida da alma cristã. Contudo esta última, julgo que morreu mais um pouco no grande confinamento, as nossas almas definharam e ficaram sedentas de vida, ajudada pela apatia da Igreja, ante os novos mandamento propaladas pela Ciência.

Tal é a autoridade da Ciência, que a Igreja obedeceu sem mais como que nova revelação divina. Nem a constituição portuguesa que garante a liberdade do culto, o clero usou para se defender. É triste, se não fosse trágico a morte da cultura cristã, a acontecer em frente aos nossos olhos. Antes de finalizar, acabo de saber que a missão da SpaceX para levar dois astronautas aos espaço, que mencionei em cima, foi cancelada devido às condições meteorológicas. Com certeza que não se deveu a um castigo divino, mas cabe à Igreja lembrar que o homem e a sua técnica, são e serão julgados pela lei moral de Deus, e só assim é que há verdadeiro progresso.



Tuesday, May 26, 2020

Os Macdonalds abriram primeiro que a Igreja!

Se existem sinais dos tempos que nos ajudam a escrutinar os princípios e valores pelos quais as sociedades se regem, a abertura das Igrejas na última fase do desconfinamento em Portugal, que se dará no final do mês de maio, é um deles. Já depois da restauração, hotéis e comércio que engloba todos os serviços que nós estamos habituados no dia a dia, começando nas lojas de tatuagens e acabando nos pet-shops, pelo meio, os cabeleireiros, manicure ou os serviços bancários, ainda estamos à espera que as Igrejas se abrem.

Não se discute da necessidade dos primeiros, pelo contrário, o mundo gira à volta do dinheiro e da estética para o fazer, compreende-se! Custa sim aceitar, que a Igreja tenha permitido que 1 mês depois do Estado de Emergência ter sido levantado, ainda não há missas! Será que não existe liberdade religiosa em Portugal? Será que as missas são irrelevantes para o povo Cristão? Para a Igreja Portuguesa parece que sim, mas mais grave e como é revelado neste excelente crónica publicada no Observador que dá o título a este post, é que o confinamento religioso revelou que a necessidade religiosa, que se acreditava ser universal, pelos vistos na Europa não o é!! Explicando-me melhor, pela primeira vez na história da cultura Europeia, que é aqui o que se trata, não houve missas, e ninguém deu por isso.

Se não sabem o que é descristianização, é isto, é não haver missas e o povo não dar por isso! Pelos vistos a Europa já vive num período irreligioso, a necessidade da religião parece ser coisa do passado. As implicações são imensas, quer para a história da cultura europeia, que reduzindo-se a uma tecnocracia, destrói o mistério e coloca o limite do seu espírito à contingência do conhecimento humano. Uma espécie de materialismo pueril que avança com os olhos nos pés, esvaindo-se em forças e indefeso, perante forças desconhecidas.

Contudo é ao nível teológico, a principal reflexão que aqui quero fazer, no caso olhando para a reforma litúrgica do Novo Rito Romano. De forma sucinta penso que é inegável as seguintes constatações: (1) a missa foi derrotada, (2) a missa não cativou, (3) esta foi a missa que ninguém deu por falta. Volto a este tópico que já aflorei um pouco no primeiro post, porque parece-me que um dos principais erros da Igreja no século XX, foi tolerar os abusos ocorridos na missa feitos por padres "iluminados", após a sua reforma no Concilio Vaticano II.

Como já referi depois do Concilio Vaticano II que muito bem, trouxe o leigo para o centro da vida Cristã, retirou-o da sua atitude passiva no que diz respeito à fé, a Igreja reformou a missa seguindo as mesmas orientações. Ora aqui que me parece ter dado um passo maior que a perna, visto que dessacralizou o seu maior Mistério, retirando totalmente o latim desta, contra as próprias instruções do documento Sacrosanctum Concilium que estatuiu o Novo Rito Romano, no qual afirma no ponto 36: 

1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.
§ 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admoestações, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes.
§ 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica.
§ 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada.

A verdade é que a novidade do Vernáculo levou a melhor, na maioria dos Padres da altura, hoje também a maioria já falecida. Não nego as boas intenções destes, na altura entenderam que o mistério  pudesse tornar-se mais inteligível pelos crentes.  Hoje sabemos que não, mesmo que o Padre fale o vernáculo mais rasco! Mais, hoje a experiência de mais de 50 anos do Novo Rito Romano, sabemos que o uso do vernáculo transmite a ideia errada, que o Padre ou a comunidade tenham a mínima ideia  do que está a acontecer, a realidade é que não entendem coisa nenhuma do mistério da Eucaristia, aliás nenhum homem na terra, ou sequer o Papa! Mistério da Fé como dizemos em Português!

Tanto não entende, que infelizmente o povo cristão foram entendendo outra coisa, e os padres também, mas que não condiz com o que está estabelecido na doutrina Católica. A festa da Eucaristia, não é festa, é sacrifício, e ainda que hoje os Cristão tenham a certeza da ressurreição tal como Nossa Senhora no calvário, não foi com espírito de festa que a nossa Mãe viu o seu filho na Cruz. Não quer isto dizer que o Catolicismo é religião da tristeza e da morte, visto que esta repete-se sempre que se reza a missa, mas porque Ele ressuscitou é que isto acontece. A morte é vencida todos os dias, até ao último, em que finalmente a sua derrota será permanente.

Com isto e para finalizar, a missa que ninguém deu por falta dela, em Portugal, Espanha, França, Itália ou Alemanha é a missa da festa, de fato a morte levou a melhor sobre ela! Finalmente deixo a pergunta que tentarei responder noutro post, como não podia a cultura Europeia não jazir, sem os voos que o mistério proporciona?

Apresentação do Nazareno!

Boa Tarde! O meu nome é António Pais, criei este blog com o objectivo de debater e reflectir sobre a actualidade da fé cristã, conjuntamente com a actualidade do mundo e a forma simbiótica com ambas se relacionam. Hoje, encontrámo-nos na ressaca do Covid-19, vírus que se abateu sobre nós, sem aviso ou atenção. Confinados em casa e distanciados uns dos outros, o vírus sem dúvida nenhuma fez acelerar a história, colocou à prova as instituições, os estados, os homens e mulheres, e sobretudo também a Igreja. 

O que vivemos neste ano foi inédito na história cristã, que naturalmente confunde-se com a história do ocidente. Pela primeira vez desde as suas origens, a celebração da Páscoa e a celebração dominical fez-se sem a comunidade, sem fieis, sem o povo de Deus. Este fato por si só, tem implicações imensas na reflexão teológica, mas também cultural, social e humana, enquadrada na história cristã. A missa onde Deus se faz Pão, sacrifício incruento que repete de forma misteriosa o sacrifício humano e Divino de Jesus Cristo na Terra. Sacrifício Perfeito que o Homem oferece a Deus, que o próprio Deus ofereceu ao Homem como meio de Salvação, que resolve os mistérios do pecado e do mal, logo, do sofrimento humano, esfumou-se da comunidade Cristã. 

O impacto teológico de tal eclipse, originado naturalmente por protecção da vida humana, não é de negligenciar. Se considerarmos que toda a teologia Católica desde o Concilio Vaticano II, deu uma guinada no sentido da Missa, orientado-a para o povo, colocando o seu centro no povo, não podemos deixar de perguntar, então as missas sem povo mantiveram a sua validade? As missas vazias mantiveram a sua eficácia e eficiência no culto a Deus e na destruição do mal no mundo? Bom a resposta para nós cristãos, parece óbvia, é claro que as missas privadas que os padres rezaram mantiveram a sua validade, além de terem sido essenciais para eliminar este mal da Terra. (Outro tópico para outro posto, é o impacto que teve no povo cristão, a ausência de comunhão, centro da fé cristã.)

Então resta-nos perguntar qual é o papel do povo cristão na celebração da Santíssima Eucaristia? A resposta simples, que devemos aos fatos acontecidos nestes últimos tempos de combate ao Covid-19 e com anuência da Igreja é nenhuma! Sim, nenhuma. O povo de Deus que vai à missa, infelizmente cada vez em quantidades menores, não vai celebrar uma ceia, onde o convívio exterior humano é central, não, desculpem os ouvidos mais progressistas de fé cristã. O povo de Deus que vai à missa, vai buscar o remédio espiritual, mais, vai buscar apenas a presença real de Jesus Cristo que por meio da consagração dos Padres, se faz presente na hóstia que é recebida por cada um de nós, iniciando-se um convívio interior! Qual sol ante a lua, é o convívio interior sobre o convívio exterior.

A celebração comunitária da Santa Missa é o dom do próprio Cristo, que por meio da sua Igreja se faz presente no interior de cada um de nós que comunga. Ou será que a oração sem Eucaristia é de igual modo poderosa? Óbvio que não, mas foi neste estado que a Igreja deixou o seu povo.. Aqui neste Blog, irei aprofundar as implicações para a cultura e fé cristã destes fatos temporais, do Covid 19 e de outros que virão, que felizmente tem a força para abalar o edifício cristão, mas não destrui-lo!

A crise pandémica no meio das crises do nosso mundo.

O nosso mundo vive actualmente uma espécie de prelúdio de uma «Dark Age», que se materializa no esvaziamento espiritual da civilização ocid...