Thursday, June 18, 2020

A União Europeia, um gigante com pés de barros?

Na véspera de um importante Conselho Europeu que poderá aprovar o pacote proposto pela Comissão Europeia que contempla um Fundo de Recuperação de 750 mil milhões de euros, dos quais sensivelmente 500 mil milhões serão em subvenções a fundo perdido, as suas hipóteses de ser aprovado, estão hoje em 50%.

Nada de novo até aqui, não existe uma inevitabilidade histórica que subverte as decisões individuais feitas pelos políticos eleitos pelos seus países. Os chamados países frugais estão contra, naturalmente por serem contribuintes líquidos para o orçamento Europeu, enquanto Portugal Europeísta, é um beneficiário líquido.

A realidade é que a crise de 2008-11, provocou mossa nos países Sul da Europa, que se viram confrontados com uma política de austeridade que criou níveis de animosidade enormes, que atingiram as instituições nacionais, e com maior vigor, as instituições Europeias, que se tornaram o bode expiatório, face à relutância dos países do Norte, mais uma vez, contribuintes líquidos, em correr riscos morais, face ao perigo de insolvência dos países do sul.

Hoje a União Europeia corre também um risco moral, mas de natureza existencial, de não sobreviver perante a desagregação do mercado interno, caso a Itália ou a Espanha, com níveis de dívida elevados, sejam obrigadas a  tomar medidas proteccionistas de modo a protegerem-se do descalabro económico e social, do que seria rácios de pagamento de dívida muito elevados.

A solidariedade Europeia será algo real? Nascida das cinzas da alta idade média, a história europeia é uma história de nações, imbuídas da cultura cristã que acolhem o Papismo mas rejeitam o Cesarismo.  Para os dias de hoje, significa que a construção Europeia, será sempre uma construção voluntária e transparente, com pés de barro, nunca mais do que isso. A verdade é que o espírito europeu actual que emergiu da vontade dos países no final da 2ª guerra mundial, materializou-se na vontade em não repetir políticas punidoras, responsáveis pelo grande suicídio das nações europeias. Ou seja, contra os tratados que premeiam os vencidos e  castigam os vencedores, a solidariedade europeia encontrou soluções originais e mistas, ainda hoje, 70 anos depois. 

Infelizmente para o espírito de solidariedade, 70 anos são uma eternidade, e esta tornou-se uma palavra vazia, que apenas esconde melhor os interesses egoístas dos estados europeus, assim hoje na política europeia, a solidariedade no verdadeiro sentido do terno, tornou-se uma política irracional. O eleitorado nacional assim o exige, desconhecedor da história e sem memória, as únicas faculdades que dão sentido à palavra solidariedade, luta naturalmente contra políticas voluntaristas europeias.  

Talvez por isso amanhã será um pouco diferente, porque a última crise ainda não foi esquecida, aliás foi ontem para quem está habituado a olhar para a história, e os seus efeitos estão presentes em todo o mundo, em líderes populistas e ditatoriais que perderam o medo. Apenas a história e o tempo, poderão ajudar políticas voluntaristas europeias e hoje mais do que nunca estão presentes, para quem não é cego.

Se a Alemanha e os países frugais atrás dela, atravessarem este rubicão, certamente que terão que explicar muito bem aos seus eleitores, a generosidade aos países do sul. Os países do sul, beneficiários líquidos, naturalmente terão ondas efusivas de europeísmo. Qual então o risco moral para estes últimos? Precisamente o estado de euforia, o despesismo e o esquecimento das dificuldades. Portugal, país que se desenrascou muito bem na história, tem mais uma oportunidade de  trilhar o caminho da convergência e de diferença, e provavelmente falhará mais uma vez.

Continuaremos nós também com pés de barros e muitos bons na arte do desenrascanso ou como se deve entender, da língua afiada..





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