Hoje os EUA voltam a obter capacidade para levar astronautas ao espaço, através de uma empresa privada americana SpaceX. Daqui a menos de uma hora se o clima permitir e se a técnica do homem não vacilar, dois homens literalmente irão para os céus, continuar a odisseia humana da exploração. No meio da pandemia Covid 19, que não tem poupado os EUA, é um sinal corajoso e de esperança que a exploração espacial, por meio da Nasa e da SpaceX, dão a toda humanidade. Entretanto ainda não se rezam missas em vários países devido a esta pandemia. inclusive em Portugal. Felizmente se Deus quiser, começarão este fim de semana.
São dois fatos introdutórios que me vão permitir reflectir um pouco sobre o atual papel da igreja na cultura ocidental. Não existe dúvidas na historiografia que todas as civilizações nasceram no seio de um cultural espiritual, ou seja, um conjunto de ideias, princípios e valores, englobados numa sistema de crença global que influenciavam sobremaneira uma comunidade de pessoas a viver de um determinado modo. No caso Europeu, coube à Igreja Católica, como sociedade humana herdeira do império romano, e como sociedade divina, responsável pela doutrinação desses mesmos povos, ser a mãe dos povos e educadora dos homens, no seio das trevas da história.
Naturalmente ao longo dessa mesma história, um dos poderes que a religião, usou de sobremaneira, foi o enquadramento dos fenómenos naturais na vida e na história da comunidade, especificamente os desastres naturais porque acarretavam muitas mortes. No caso da Igreja Católica, não é necessário muita originalidade para percebermos quais as principais ideias que os padres transmitiam aos crentes, seguindo a tradição bíblica, os desastres naturais tratavam-se de castigos divinos e que normalmente eram antecedidos por sinais de modo que a comunidade pudesse arrepiar o seu mau caminho. Ninive arrependeu-se e foi salva, enquanto Sodoma e Gomorra mais conhecidas na cultura secular, foram destruídas por fogo que caiu no céu.
Na história ocidental o terramoto de Lisboa é um marco divisório porque pela primeira vez, o positivismo iluminista descartava a explicação teológica dos terramotos, limitando-os a causas naturais. Defendiam que os pecados dos lisboetas pouco contavam para a ocorrência do terramoto. Hoje sabemos que estes se devem à movimentação de placas tectónicas que existem na terra.
Com isto a questão parece resolvida, as causas para os desastres naturais são independentes da acção humana, nomeadamente da acção moral do homem e deste modo a religião não tem uma palavra a dizer sobre estas ocorrências. Aliás a racionalidade humana afastou da esfera cultural e pública, qualquer sistema teológico de explicação, reduzindo-o a uma experiência particular. Mais hoje em dia, durante os eventos do covid 19, inacreditavelmente é a ciência que ensina à igreja, como rezar a missa, ou seja, é a ciência que ensina a missa ao padre, segundo a proverbial expressão portuguesa, mas sem a ironia tradicional.
Não ignorando que o estudo das causas naturais, que se desenvolveu na ciência ocidental, emergiu no seio da cultura cristã na secular luta contra o paganismo, e foi no interior desta cultura, que o nosso mundo perdeu todas as suas propriedades mágicas. Que foi o sistemático esforço dos vultos medievais, no qual Aquino brilha, que o homem se colocou numa posição superior à substância deste mundo, que não seria mais que uma máquina para o homem poder estudar. E embora Aquino garantisse essa posição superior ao homem em relação a este mundo, colocou-o numa posição inferior em relação ao mundo espiritual, cabendo à ciençia mãe, a teologia, o estudo deste mundo invisível, pelo qual os fins do nosso mundo são determinados. Ou seja o homem é matéria e espírito e desta forma está ligado aos dois mundos e por eles é definido. Cabe pois à teologia estudar os fins e as razões que determinam e definem a nossa vida, quer pela revelação divina quer pelo uso da razão natural.
Como sabemos hoje, este mundo invisível desapareceu das nossas costas, e hoje a ciência ensina a rezar a missa, de modo que não venhamos a morrer por dar culto a Deus, que hoje mais parece, não o principio da vida, mas o principio da morte. Mas será então a ciência a dar-nos a vida eterna? Talvez, hoje o velho sonho da imortalidade parece renascer. Por isso, quero alertar para o perigo que a religião cristã tem, em deixar-se aprisionar o culto a Deus, a preceitos contingentes deste mundo efémero.
Não nego que nesta epidemia do Covid como em tantas outras, as Igrejas físicas são focos de infecção e dos mais perigosos até. Mas também não nego do perigo de se deixar prestar culto ao principio da mesma vida, Deus. Mais, não nego o perigo, que é negligenciado na nossa época, até por quem deveria alertar com mais força, nomeadamente a Igreja, de se tentar proteger a vida humana e deixarmos morrer a nossa alma comum. Não é preciso ser-se douto, Cristo resumiu na seguinte sentença "o que adianta ao homem ganhar o mundo, se vier a perder a sua alma" (MT16:25-26)
O que adianta a Igreja querer salvar a vida terrena, se põem em risco a alma cristã do povo. Será que não haveria outra opção. Será que a Igreja tem o direito de não rezar missas, contra a própria ordem de Cristo? É claro que havia outra opção, então não fomos todos os dias ao supermercado comprar alimento para os nossos corpos, e acaso morremos? Então porque não poderíamos ir à Igreja alimentar a nossa alma, sem correr risco de igual modo?
As Igrejas por exemplo, poderiam estar abertas com apenas 50% das cadeiras livres, e haveria redução do foco, assim quer a vida física seria preservada como manda Deus, mas sobretudo a vida da alma cristã. Contudo esta última, julgo que morreu mais um pouco no grande confinamento, as nossas almas definharam e ficaram sedentas de vida, ajudada pela apatia da Igreja, ante os novos mandamento propaladas pela Ciência.
Tal é a autoridade da Ciência, que a Igreja obedeceu sem mais como que nova revelação divina. Nem a constituição portuguesa que garante a liberdade do culto, o clero usou para se defender. É triste, se não fosse trágico a morte da cultura cristã, a acontecer em frente aos nossos olhos. Antes de finalizar, acabo de saber que a missão da SpaceX para levar dois astronautas aos espaço, que mencionei em cima, foi cancelada devido às condições meteorológicas. Com certeza que não se deveu a um castigo divino, mas cabe à Igreja lembrar que o homem e a sua técnica, são e serão julgados pela lei moral de Deus, e só assim é que há verdadeiro progresso.
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