Thursday, May 28, 2020

Poderá a cultura sobreviver, se apenas alicerçada na tecnica?

Como prometi, irei fazer uma pequena reflexão sobre a pergunta colocada em título neste post. Antes de mais convêm definir cultura, que tem amplos significados. Em termos sucintos, cultura é a realização positiva do espírito humano na natureza. É a manifestação da grandeza moral do homem através do trabalho físico ou intelectual. É a criação positiva do homem, na natureza e no mundo. É a cultura que permite a uma sociedade civilizar-se, no fundo, é a cultura que permite criar a civilização, grau máximo de realização das sociedades humanas. Ou seja, a cultura permite aperfeiçoar as diferentes artes, técnicas e conhecimentos, permitindo que as sociedades melhorem o seu bem estar material e espiritual. Desta forma as diversas artes e ciências, e no caso a tecnologia, são o produto de uma cultura. Ora bem, aqui chegámos ao ponto, em que olhando para a questão percebemos que está mal colocada, porque a cultura não se alicerça na técnica, pelo contrário, a técnica é produto da cultura, que permite avançar a civilização. 

Então o que alimenta a cultura se não é a técnica?

A cultura como acima descrevi, é o labor do homem na natureza mediante o seu esforço, que é primeiro esforço moral de modo a agir, pela auto-imposição de disciplina a si mesmo. Ora o homem é um ser com várias necessidades, as mais básicas são as necessidades físicas que se cumprem de forma quase instintiva e por isso sem qualquer tipo de esforço moral.  Depois as necessidades sociais são de uma exigência mais complexa, o reconhecimento de uma esposa, o reconhecimento da comunidade, e o mais exigente, o auto-reconhecimento acabam por criar no homem uma capacidade para agir mais elaborada e consciente. Não existem culturas primitivas que não englobem na sua espiritualidade o caminho certo que o homem deve percorrer de modo a poder conquistar esses níveis de reconhecimento, e é desta forma que nasce a ideia de culturas na história humana.

Depois existem as culturas mais elaboradas, que culminam esse reconhecimento social, não aqui na terra, mas sim num mundo além, fora deste, alcançável depois da morte. Isto porque naturalmente o esforço moral que o homem faz, procurando cumprir essas necessidades sociais, implica muitas vezes sofrimento e até morte. Ao longo da sua história as sociedades humanas viram-se confrontadas por desastres naturais, por doenças, mas não só, lentamente também se viram confrontadas pelo mal provocado por outras comunidades de homens procurando os mesmos recursos. A ideia do sacrifício, cara às religiões, são a forma que o homem encontrou para aplacar o mal que desconhece e assim defender a sua comunidade. E foi na teleologia de Deus, fora deste mundo (de outra natureza), que o homem encontrou o seu fim, o Bem, a Verdade e o Belo.

As diversas culturas originaram diversas civilizações, no entanto houve uma, que rompeu com a ciências dos fins, a teleologia. Cristo Deus resgatou o homem do mal, o sacrifício perfeito, destruiu as forças mágicas da natureza, dessacralizando-a e elevando a natureza caída do homem à sua categoria espiritual. As forças da natureza foram rebaixadas ante a realidade espiritual do homem e de Deus, e o que se seguiu foi uma explosão no conhecimento técnico e experimentalista de modo que o homem pudesse servir-se dele. Ainda assim demorou mil anos, para que a civilização cristã emergisse desta cultura revolucionária.

Tal foi o sucesso da cultura cristã, que hoje, a técnica produzida, que promete ser o novo santo Graal, doadora de vida eterna, ameaça esta de morte, rompendo com a sua teologia, mas também com qualquer teleologia vazia de valor empirico. Voltando pois, à questão de cima que já vimos que está mal colocada, mas agora olhando-a de outro modo. Ou seja, será a cultura vítima mortal da sua própria técnica? Talvez assim já faça sentido a questão em título: - Poderá a cultura sobreviver se apenas alicerçada na técnica? A resposta parece óbvia aos olhos actuais, a técnica não é fonte de uma teleologia, deste modo uma cultura que sobrevive exclusivamente pela técnica destrói os seus alicerces espirituais. Apenas o esforço moral humano, cria sentido e propósito, uma teleologia vital para a dinâmica de qualquer cultura.  E é na realidade da morte e da sua eminência, que provêm a origem de todas as energias vitais que incrementam as culturas históricas, e as transformam em civilizações. Se esse esforço falhar, morrem. Assim, seguindo Arnold Toynnbee um dos grandes historiadores do século XX, escreve que estas só podem morrer de duas causas, (1) são destruídas por outras civilizações superiores, (2) ou cometem suicídio.

Voltando à civilização ocidental, a técnica continuamente desenvolvida, por um lado espelha o sucesso da civilização cristã, mas por outro, é também a principal responsável pela descristianização da cultura, cortando os seus alicerces espirituais. Mediante o bem estar material alcançado, toda a teleologia perde o seu valor, a vida depois da morte desaparece das necessidades psicológicas do homem, e o esforço moral necessário para os homens viverem, diminuiu sobremaneira. Cristo disse que o reino de Deus não é deste mundo, mas hoje a ciência quase que à força, o traz para o nosso mundo. Ao fim de 2000 anos Cristo ainda não cumpriu a sua promessa de voltar com o seu reino, e por isso os homens naturalmente o querem trazer. A técnica ocidental afastou muitos males da vida humana e prolongou a vida do homem, e não fosse o vírus Covid 19, parecia que só a morte física faltaria resolver, cumprindo o livro da Revelação.

Se a técnica for o último alicerce da cultura ocidental com vitalidade, como impedir então o ocidente de cometer suicídio espiritual? Para além da Igreja ser a primeira responsável para impedir a descristianização da sociedade ocidental, cujas ensinamentos espirituais (teologia) foram responsáveis pelo grau de civilização alcançado, o seu papel  encontra-se muito enfraquecido, e até na crise do covid 19, a sua prestação foi quase suicidária. Por isso actualmente são as instituições políticas, responsáveis pelo bem comum, com a maior responsabilidade de impedir a desagregação da civilização. Estas não podem esperar por uma guerra mundial, para adoptar algumas medidas tradicionalistas em favor de uma maior sentido moral da acção humana. Por exemplo nos vectores ambiental, na economia, e nas relações humanas, que actualmente correm riscos eminentes de provocar verdadeiros desastres sociais e naturais no nosso mundo. A Igreja pode e deve dar um contributo enorme para apontar esses riscos morais, e tem sido isso felizmente que o Papa Francisco tem feito, ao apontar para as graves injustiças económicas e para a destruição irresponsável do planeta.

Mas também cabe à Igreja e assim finalizo, dar um maior contributo para reintroduzir novamente o sentido do mistério e de uma teleologia na cultura actual, através por exemplo, da liturgia, colocando elementos que enfatizam a sacralidade da vivência humana e do seu propósito, de modo que a consciência moral do homem,  ajudada pela fé, lhe dê a força a agir para o bem da humanidade. No fundo, fazer avançar a civilização e renovar a cultura ocidental.




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