Se existem sinais dos tempos que nos ajudam a escrutinar os princípios e valores pelos quais as sociedades se regem, a abertura das Igrejas na última fase do desconfinamento em Portugal, que se dará no final do mês de maio, é um deles. Já depois da restauração, hotéis e comércio que engloba todos os serviços que nós estamos habituados no dia a dia, começando nas lojas de tatuagens e acabando nos pet-shops, pelo meio, os cabeleireiros, manicure ou os serviços bancários, ainda estamos à espera que as Igrejas se abrem.
Não se discute da necessidade dos primeiros, pelo contrário, o mundo gira à volta do dinheiro e da estética para o fazer, compreende-se! Custa sim aceitar, que a Igreja tenha permitido que 1 mês depois do Estado de Emergência ter sido levantado, ainda não há missas! Será que não existe liberdade religiosa em Portugal? Será que as missas são irrelevantes para o povo Cristão? Para a Igreja Portuguesa parece que sim, mas mais grave e como é revelado neste excelente crónica publicada no Observador que dá o título a este post, é que o confinamento religioso revelou que a necessidade religiosa, que se acreditava ser universal, pelos vistos na Europa não o é!! Explicando-me melhor, pela primeira vez na história da cultura Europeia, que é aqui o que se trata, não houve missas, e ninguém deu por isso.
Se não sabem o que é descristianização, é isto, é não haver missas e o povo não dar por isso! Pelos vistos a Europa já vive num período irreligioso, a necessidade da religião parece ser coisa do passado. As implicações são imensas, quer para a história da cultura europeia, que reduzindo-se a uma tecnocracia, destrói o mistério e coloca o limite do seu espírito à contingência do conhecimento humano. Uma espécie de materialismo pueril que avança com os olhos nos pés, esvaindo-se em forças e indefeso, perante forças desconhecidas.
Contudo é ao nível teológico, a principal reflexão que aqui quero fazer, no caso olhando para a reforma litúrgica do Novo Rito Romano. De forma sucinta penso que é inegável as seguintes constatações: (1) a missa foi derrotada, (2) a missa não cativou, (3) esta foi a missa que ninguém deu por falta. Volto a este tópico que já aflorei um pouco no primeiro post, porque parece-me que um dos principais erros da Igreja no século XX, foi tolerar os abusos ocorridos na missa feitos por padres "iluminados", após a sua reforma no Concilio Vaticano II.
Como já referi depois do Concilio Vaticano II que muito bem, trouxe o leigo para o centro da vida Cristã, retirou-o da sua atitude passiva no que diz respeito à fé, a Igreja reformou a missa seguindo as mesmas orientações. Ora aqui que me parece ter dado um passo maior que a perna, visto que dessacralizou o seu maior Mistério, retirando totalmente o latim desta, contra as próprias instruções do documento Sacrosanctum Concilium que estatuiu o Novo Rito Romano, no qual afirma no ponto 36:
- 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.
- § 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admoestações, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes.
- § 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica.
- § 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada.
A verdade é que a novidade do Vernáculo levou a melhor, na maioria dos Padres da altura, hoje também a maioria já falecida. Não nego as boas intenções destes, na altura entenderam que o mistério pudesse tornar-se mais inteligível pelos crentes. Hoje sabemos que não, mesmo que o Padre fale o vernáculo mais rasco! Mais, hoje a experiência de mais de 50 anos do Novo Rito Romano, sabemos que o uso do vernáculo transmite a ideia errada, que o Padre ou a comunidade tenham a mínima ideia do que está a acontecer, a realidade é que não entendem coisa nenhuma do mistério da Eucaristia, aliás nenhum homem na terra, ou sequer o Papa! Mistério da Fé como dizemos em Português!
Tanto não entende, que infelizmente o povo cristão foram entendendo outra coisa, e os padres também, mas que não condiz com o que está estabelecido na doutrina Católica. A festa da Eucaristia, não é festa, é sacrifício, e ainda que hoje os Cristão tenham a certeza da ressurreição tal como Nossa Senhora no calvário, não foi com espírito de festa que a nossa Mãe viu o seu filho na Cruz. Não quer isto dizer que o Catolicismo é religião da tristeza e da morte, visto que esta repete-se sempre que se reza a missa, mas porque Ele ressuscitou é que isto acontece. A morte é vencida todos os dias, até ao último, em que finalmente a sua derrota será permanente.
Com isto e para finalizar, a missa que ninguém deu por falta dela, em Portugal, Espanha, França, Itália ou Alemanha é a missa da festa, de fato a morte levou a melhor sobre ela! Finalmente deixo a pergunta que tentarei responder noutro post, como não podia a cultura Europeia não jazir, sem os voos que o mistério proporciona?
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