Monday, June 1, 2020

Black Lives Matter

Todos os homens são irmãos em Cristo. Todos os Homens pertencem a uma só família, a uma só comunidade. Apesar da frase inicial deste texto, não é necessário a fé, para a razão humana inteligir uma verdade universal. Pertencemos todos a uma mesma espécie. Cristo apenas confirmou que todos temos um só Pai. Foi nesse espírito que a Democracia da América foi fundada, inspirada no espírito cristão, no qual o homem se vê em dignidade acima de toda a vida criada, por vontade do Criador e deste modo inalienável. Deste modo não existe poder na terra, humano ou mundano que tenha poder  para revogar a dignidade de um só homem. 

Todo o esquema moral desta grande nação, foi de uma forma genial resumida na seguinte frase muito conhecida do preâmbulo da Declaração da Independência dos EUA:

Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade.

Apesar desta luz gravada na certidão de nascimento dos EUA, ainda assim este, herdeiro das várias instituições europeias e do seu espírito, herdou também a instituição da escravatura, que se desenvolveu muito durante as descobertas europeias do novo mundo, e foi aí, que se estabeleceu com maiores raízes, porque ligadas à economia rural das plantações. Foram precisos cerca de 100 anos e uma guerra civil para que esta instituição desmoronasse plenamente, perante as verdades auto-evidentes gravadas em letras, mas não  totalmente compreendidas na sua amplitude. São um verdadeiro plano para séculos nos EUA. Toqueville no seu majestoso livro «A Democracia Americana» observando a prevalência da escravatura no Sul dos EUA, previu que a médio prazo, seria um dos factores mais em risco para a sobrevivência desta jovem democracia. A vitória do Norte onde a economia não dependia da mão de obra esclavagista, garantiu que ao nível das instituições a escravatura fosse proscrita de vez. 

No entanto, o mesmo norte que não obtinha proveitos da economia esclavagista, devido ao cariz  produtivo mais industrial do que primário, desenvolveu uma forma de racismo de costumes, que se materializou em leis especificas para os brancos e pretos. Respeitando cinicamente os princípios constitucionais, durante décadas desenvolveu-se quase como duas repúblicas, dois povos, duas comunidades, no seio de apenas uma constituição, e  uma democracia, naturalmente dominado pelos homens brancos.

Demorou pelo menos outros 100 anos para que as verdades auto-evidentes assinaladas, fizessem ruir na sociedade dos EUA, a separação física entre os homens brancos e negros, cumprindo um pouco mais, o seu destino moral de dignificação de todos os homens. É de fato um grande exemplo que a história dos EUA revela, sobre o poder que a cultura de um povo tem, sobre as suas instituições. Na sua história, não existe dúvidas que foi a sua cultura a modelar as instituições e não o  contrário, no longo caminho, que a sociedade Americana fez até hoje, de modo a cumprir de forma cada vez mais verdadeira, as tais verdades auto-evidentes. Foi o esforço moral de cada um dos Americanos no seu quotidiano, que mais do que cumprir o preâmbulo Americano, o viveu no seu interior, esse mesmo preâmbulo que é um programa moral para a vida dos EUA, enquanto existir.

Por isso hoje causa repulsa a toda comunidade Americana e mundial, o ato de racismo perpetuado pelo polícia que assassinou de forma brutal George Floyd em Minneapolis, EUA. Não é o ato contra só a comunidade Negra, é também um ato contra o próprio espírito Americano, no fundo é um acto contra a própria essência da América. 

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