Ainda estamos na ressaca da pandemia do Covid 19. Não há dúvidas que para alêm dos seus impactos económicos e políticos, o seu impacto na vivência religiosa não foi diminuto. A pandemia veio mais uma vez revelar velhas divisões da vivência religiosas das diversas Igrejas Cristãs, mas também no interior dessas mesmas Igrejas, como é o caso da Igreja Católica que se encontra presente nas diferentes geografias. Embora nunca como hoje, houve um Papa que é sobremaneira contestado publicamente pelos sectores mais conservadores, liderados pelo Cardeal Americano Raymond Burke.
O Economist sintetizou neste interessante artigo, as principais razões que opõem estas duas facções de crentes, naturalmente apontando para o que elas têm mais medo. Por um lado estão os crentes que encaram a sua fé a partir de uma sensibilidade mais humanista, ou seja aplicam o principio de São Tiago que sem obras não existe fé. As suas principais preocupações nesta crise, são combater o aumento da pobreza e a degradação ambiental. São os crentes colaboracionistas com o Estado e as suas agências, de modo a lutarem pelo bem comum. A segunda facção de crentes tem apontado baterias ao avanço do secularismo, nomeadamente da liberdade religiosa que foi muito afectada pelo confinamento. Deste modo o Estado e a cultura secular que o move, nomeadamente os direitos gays, feminismo, ideologia do género são a sua principal preocupação.
Estas diferenças foram espelhadas no âmbito geográfico. A diferente abordagem das igrejas nos EUA com as suas congéneres na Europa. No seio da Igreja Católica onde o Papa liderou o acatamento sanitário por parte das autoridades, e desta forma foi um exemplo para toda a vivência religiosa no continente Europeu, apontando precisamente para as preocupações humanitárias,.
Eu aqui já falei sobre a necessidade de a Igreja corresponder aos anseios das duas sensibilidades, valorizando na sociedade uma maior sentido moral para contrapor ao secularismo, nomeadamente na óptica ambiental, económica e política, mas correspondendo sempre a uma dinâmica de vivência da sua vida espiritual, por meio dos seus sacramentos, especificamente a Eucaristia. Infelizmente como sabemos isso não aconteceu, no caso europeu isso pode ser explicado, por uma maior tradição teocrática, e talvez explique um maior colaboracionismo da hierarquia da Igreja com as autoridades.
Já nos EUA a tradição protestante é maior, não existe relações formais entre as diversas igrejas e o estado, assim o combate ao covid é feito mais ao nível espiritual, contra a cultura secular. Para os sectores tradicionais Católicos, que têm em mais consideração este combate , a postura do Cardeal Burke é mais aceitável, do que o colaboracionismo que não tem em conta a fé:
“We cannot simply accept the determinations of secular governments, which would treat the worship of God in the same manner as going to a restaurant or to an athletic contest.” (Cardinal Burke, Economics 2.06.20)
As duas abordagens são complementares, infelizmente a crise da fé, evidencia-se mais, quando não existe comunhão e amizade no interior da Igreja, do que propriamente por agendas que não são incompatíveis. O colaboracionismo da Igreja com o Estado salvou vidas, as raízes da espiritualidade luterana que enforma os cidadãos dos países nórdicos a se comportarem, também.
Mas o que é inegavelmente novo neste período, alargando o fosso entre as duas sensibilidade, é que pela primeira vez, algo contingente como a epidemia, confinou nosso Senhor Jesus Cristo.
Não houve missas.
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