Saturday, May 30, 2020

Saúde Mental e Religião

Hoje como sabemos vivemos um período de enorme fragilidade psicológica devido à epidemia Covid 19, que brutalmente provocou um confinamento geral da população, com enormes danos psicológicos ainda por estudar. A solidão, a falta do tacto, o espaço reduzido e interior das nossas casas, sem possibilidade de grandes passeios e socialização no exterior foram tudo sintomas e consequências trágicas, que sobremaneira danificaram a saúde mental de pessoas fragilizadas ou até de pessoas mentalmente robustas. O álcool ajudou felizmente, com o disparo das suas vendas durante o período do confinamento

No entanto antes deste período de estado de excepção, já a nossa sociedade era vítima de doenças do foro da saúde mental como a depressão, ansiedade, esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar, psicoses várias, etc. O consumo de comprimidos elevados para dormir, para combater a depressão, reduzir a ansiedade, ou vários tipos de calmantes, são apenas o sintoma mais visível desta realidade genericamente invisível e fácil de esconder.

As causas são múltiplas e tem haver muito com o desligamento que a nossa sociedade atual tem com o mundo natural e com os seus ciclos. O cérebro do Homo Sapiens evoluiu e foi grande parte estruturado para a vida recoletor-caçador, no qual abrange um período de mais de 100 mil anos da nossa história, antes do nascimento das civilizações ou do próprio nascimento da História.

A nossa sociedade industrial  só tem 200 anos, os nossos cérebros comparativamente têm centenas de milhares de anos. Outra particularidade da nossa sociedade, sobretudo europeia onde a vivência religiosa pública é frugal, tem  haver com o espaço que a vida espiritual ocupa no nosso quotidiano, é diminuta e também frugal e cada vez mais supersticiosa. A técnica está a matar a espiritualidade.

Terá pois ligação a insípida e actual vivência espiritual dos homens com as fragilidades mentais que hoje devastam as nossas sociedades, especificamente a Europeia? Bom não pretendo responder e atar todas as pontas que esta questão coloca, como é evidente. Gostaria apenas de reflectir sobre alguns fatos ocorridos, nomeadamente no contexto desta crise pandémica. Como sabemos durante o período do confinamento, Portugal e vários países Católicos ficaram sem missas e até os sacerdotes foram impedidos de dar apoio espiritual aos doentes no SNS, num período de extrema fragilidade, devido à expectativa de doença e até morte de muitos. Perante o desconhecido e o medo, que houve muito  em relação ao Covid19, os nossos médicos e enfermeiros fizeram um bom trabalho, mas naturalmente o seu trabalho é técnico, é resolver o problema da saúde física. No que diz respeito aos problemas de saúde mental, tarde, mas ainda assim a tempo, o Estado Português disponibilizou apoio psicológico. Mas mediante a expectativa de morte do próprio doente, não me parece suficiente. Pergunto que conforto espiritual puderam obter os doentes?

Nesta crise foi evidente a negligência que este serviço espiritual prestado pelos capelães dos hospitais, tem hoje na sociedade. Sem dúvida que é um serviço voluntário, ou seja, é mediante pedido do doente. No entanto para as nossas autoridades seculares, o serviço espiritual no máximo é um placebo, não existe ministração química, que no caso do apoio psicológico, para além do aconselhamento pode ocorrer, ou seja o aconselhamento espiritual no limite é um capricho, na prática é inútil nas cabeças seculares pensantes.

 Ora está na altura da Igreja lutar contra esta visão antropológica do homem, que se repercute em todas vertentes sociais, especificamente na saúde, que o trata no limite, como um animal pensante, na prática como uma besta. 

Felizmente a maioria das doenças hoje são atendíveis e combatidas ao nível químico e no futuro próximo prevenidas até pela edição genética, contudo a morte ainda não está resolvida e as forças que o homem lida, a começar pela origem da vida, são muito mais abrangentes e permanecem em grande parte um mistério. Por muito conhecimento que o homem pode acumular, do funcionamento mecânico deste mundo e do corpo humano, as questões centrais continuam um mistério, deste modo a forma como o ser humano lida com a morte, não pode ser  negligenciada como se uma máquina se tratasse e a morte uma espécie de turn off.

O ser humano é constituído de consciência, cuja substância ainda hoje permanece um mistério. E como animal consciente que é, tem em primeiro lugar consciência da sua morte,  um dos fenómenos mais emocionalmente dramáticos da experiência humana. Assim a morte naturalmente carrega múltiplos significados, quer para a pessoa que a espera quer para as pessoas que lhe são próximas. Deste modo  ter uma morte boa é essencial, uma morte em que a pessoa se encontra em paz consigo e com os seus. É um direito inalienável da pessoa humana, e por isso não se compreende que tenha sido proibido o acompanhamento espiritual dos milhares de pessoas que vieram a falecer de covid19 em Portugal. Houve várias iniciativas da Igreja de modo que por exemplo as pessoas pudessem receber a santa unção à distancia, a partir de orações pessoais ou a existência de confissões colectivas, mas no fundo fisicamente abandonadas e sozinhas. Óbvio que nós vivos não sabemos o que essas pessoas passaram, e se de fato foram em paz, sem verem um rosto amigo ou terem um palavra de esperança.

A Igreja não pode com passividade aceitar esta situação no futuro nos hospitais, que me parece similar, à  mesma passividade em fazer frente aos poderes públicos e às autoridades cientificas, que arbitrariamente após finalização do estado de emergência, proibiram as missas cerca de 1 mês. É uma situação inaceitável. 

O Homem só é saudável, se construir no seu espírito, um trono à Paz, que advêm da capacidade moral em fazer o bem e corrigir o mal praticado. É uma experiência comum e inata, assim deixai que os Pastores com ajuda das famílias, cuidem dos corações dos nossos doentes no termo da sua vida.



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